jardim - https://almanaque.nalu.in Sun, 09 Feb 2025 18:30:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://almanaque.nalu.in/2025/02/09/como-vou-viver-sem-meu-carango/ https://almanaque.nalu.in/2025/02/09/como-vou-viver-sem-meu-carango/#comments Sun, 09 Feb 2025 18:30:49 +0000 https://almanalua.blog/?p=947 como vou viver sem meu carango

Belo Horizonte, 09 de fevereiro de 2025

🌦 20º- 29º


09 de Fevereiro é Dia do Frevo em Pernambuco. Em 1964 aconteceu a primeira aparição dos Beatles ao vivo, dando início a Beatlemania.  Em 1986 o Cometa Halley apareceu. Em 2021 começou o segundo julgamento de impeachment da Desgraça Laranja. Em 09 de fevereiro nasceram Carolina Nabuco, Carmen Miranda, André Gorz, Thomas Bernhard, J. M. Coetzee, Carole King, Alice Walker e Mia Farrow.


A um Estranho

Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

♦

Walt Whitman



Em 9 de fevereiro de 1924 Virginia Woolf escreveu em seu diário a seguinte entrada:

Portanto, nossos sentimentos em relação aos nossos amigos mudam. Corte-me em qualquer lugar, e eu sangro muito profusamente. A vida criou muita “sensação” de algum tipo em mim. Então (estou tão cansada com pacotes etc. que não consigo me concentrar), Marjorie pôs brincos nas orelhas e abandonou Joad. Pobre fedelha! Tem 24 anos. Eu estava em Fitzroy naquela época, e também infeliz como um diabo. Ela encontrou uma carta, abandonou a casa – mora num porão. É um melodrama, mas foi forçada a ele por Cyril, presumo. Eu estou trabalhando n’As horas, e o considero uma tentativa muito interessante; posso ter encontrado minha mina desta vez, eu acho. Posso retirar dela todo o meu ouro. A grande coisa é nunca se sentir entediada com a sua própria escrita. Esse é o sinal para uma mudança – não importa qual, contanto que traga interesse. E o meu veio de ouro está nas profundezas, em canais muito tortos. Para apanhá-lo devo abrir caminho com um martelo, me inclinar e tatear.

Virginia Woolf – Os Diários de Virginia Woolf – Uma Seleção 1897 – 1941 – Ed. Rocco


Em 9 de fevereiro de 1943 foi a vez de Miguel Torga registrar:

Três passos, e cuidei que tinha atravessado o Marão. Sensação estranha, esta de recomeçar a vida! O covarde do corpo hesita entre o decúbito cómodo da sepultura e a verticalidade dolorosa de existir.

Miguel Torga – Diário II – Ed. Coimbra


Quem confia em si mesmo é um tolo

Provérbios 28:26

Nestes tempo tem sido difícil fazer esse almanaque. Não porque faltem referências, porque as cartas não tenham nada a dizer, porque falte vontade. Parece que a cada dia o entorno vai se tornando mais opressor, mais nebuloso e cinza, e que qualquer tentativa de escape seja vã, ou fútil, ou desavisada. O que estamos vivendo é algo muito sério, estamos vendo a ascensão de algo muito podre, muito danoso e seremos todos vítimas do que vem por aí. Assim, como escrever sobre cartas de tarô quando a perspectiva é de ver ao vivo o extermínio de um povo, de uma classe de pessoas, do mundo como o conhecíamos e que tínhamos no imaginário? E é justamente por causa disso que eu tento me agarrar ao que em mim organizam as cartas. Para além de qualquer dimensão sobrenatural, na qual não eu não acredito, apesar da jovem mística que fui e da velha quase mística que sou, as cartas são instrumentos que ajudam a organizar a nossa vida interior. Elas servem, entre outras coisa para arranjar a narrativa da vida, para nos dar um senso provisório de coerência, sem que isso necessariamente implique em sobrenaturalidade (risos).

Bastante desolada com todo esse clima no mundo, preocupada como sempre sou, estava pensando na Inês um dia destes e vi meu pai, um senhor de 86 anos e muitíssima vida atrás de si sentado placidamente lendo um livro clássico da literatura russa, completamente envolvido na leitura daquele volume, alheio a todo barulho e caos que se faziam ao seu redor, por horas e horas. Imediatamente eu me lembrei de uma noite muito insone em que olhei para minha pequena recém-nascida que dormia na mesma placidez, apenas existindo e pensei que aquilo poderia ser, caso eu alcançasse, a cura para insônia atroz que me visita sempre. Que estar em si, daquela maneira tão inteira e despreocupada era o núcleo da vida. Que para viver era preciso não viver por alguns momentos. Estar tão imerso em algo ou tão completamente absorvido na própria existência sem consciência que o sentido se apresenta de per si.

E com estas duas imagens em mente eu fui transportada quase sobrenaturalmente (ha ha ha) para a carta da semana, que estava ali e eu não encontrava palavras para escrever sobre ela.

É a carta O Carro. Esse arcanos que tradicionalmente representa a vitória sobre si, mas que é o meio que nos dirige ao pleno espaço/tempo de nós mesmos. É claro que estar em si, que vestir a própria pele com conforto, aproveitar o momento, tudo isso tem a ver com esse estar em si. Mas é um pouco mais, e os olhos podem não conseguir perceber de imediato. Essa faceta do carro se apresenta naquele momento em que toda insegurança acaba, em que estamos de tal forma à vontade na vida que não é preciso nada mais. E não é um movimento deliberado, como nas práticas de mindfulness, ou das práticas de estar presente no agora. É mais que isso. É o momento em que o Carro nos entregou ao nosso destino, ao que viemos fazer neste mundo. E o que viemos fazer é simplesmente estar em nós mesmos, nada mais é necessário. Inclusive para conseguir sair dessa roda viva é o Carro que nos vai  levar para onde nasce o Sol. É essa carta que inaugura as jornadas, e inaugura o ser em nós.

Estar em si mesmo é mais que um estado passageiro ou egoísta; é uma prática de habitar o próprio ser, como quem encontra refúgio em um lugar sagrado. É um movimento interno de retorno ao que é essencial, onde a voz do mundo exterior fica mais baixa e os ruídos externos diminuem, deixando paisagens íntimas a serem exploradas. Nesse espaço a vida ganha novas camadas, uma conexão autêntica com quem se é. É como desembaraçar os fios de uma tapeçaria: pensamento, memória, sonho e ferida compõem um padrão que só faz sentido observado de dentro. É o momento em que  surge a coragem de viver a partir de uma verdade pessoal, mesmo que imperfeita.

É um perigo fazer dessa carta um passaporte para um modo de viver egoísta e autocentrado. Só seremos plenos e teremos um lugar sabendo que tudo está conectado. Que todos os seres sejam felizes, este é o objetivo. E quando aterrissamos, mesmo que por uma fração de segundo, o mundo volta ao lugar. Chegamos em nós para percebermos o todo, os outros, o Outro, o diverso. Sem isso não estamos.

Se você recebeu esse presente do carro, você será sim, nesta semana, um ser privilegiado.

Boa semana, dirijam com segurança e cheguem bem.

O Carro

A carta de tarô O Carro simboliza movimento, progresso e controle. Representa a capacidade de avançar em direção aos objetivos com determinação e nos lembra que somos os condutores de nossas próprias vidas, e que temos o poder de sonhar em direcionar nosso destino. A vitória sobre si mesmo é um dos maiores triunfos que podemos alcançar. Significa encontrar a força e a coragem necessárias para seguir em frente, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis. É um processo que nos permite alcançar um estado de equilíbrio e harmonia interior. Quando combinamos a energia da carta O Carro com a vitória sobre si mesmo, obtemos uma poderosa mensagem de superação e realização. Lembre-se sempre do poder que você tem dentro de si para conduzir sua própria jornada e alcançar suas metas. Tenha coragem para enfrentar seus medos e dúvidas, e saiba que a verdadeira vitória começa quando você volta para o seu lugar.

Um Texto Carruagem

Epistola in carcere et vinculis Reading

Prisão de Sua Majestade

Caro Bosie,

Tenho muito mais pela frente. Tenho montanhas muito mais íngremes a escalar, vales muito mais escuros a atravessar. E tenho de extrair tudo de mim. Nem a Religião, a Moral ou a Razão poderão servir-me de ajuda.

A Moral não me ajuda. Nasci antinómico; sou um dos que foram feitos para as excepções e não para as leis. Mas se percebo que não há nada de errado naquilo que fazemos, vejo também que pode haver naquilo em que nos tornamos. E é bom ter aprendido isto.

A Religião não me ajuda. A fé que os outros depositam no que não vêem, eu deposito no que pode ser tocado e observado. Os meus deuses habitam templos feitos com mãos, e o meu credo torna-se perfeito e completo no círculo da experiência real; talvez demasiado completo, pois como muitos ou todos os que situaram o seu Céu neste mundo, eu encontrei nele não apenas a beleza dos Céus, mas também os horrores do Inferno. Quando sucede pensar em religião, sinto que gostaria de fundar uma ordem para aqueles que não acreditam: a Confraria dos Sem-Pai, como poderia ser chamada, onde num altar onde nenhum círio ardesse, um sacerdote em cujo coração nenhuma paz encontrasse morada pudesse celebrar com pão não consagrado e um cálice vazio de vinho. Para ser verdadeira, uma coisa tem de se tornar uma religião. E o agnosticismo, como a fé, deveria ter o seu ritual. Semeou os seus mártires, deveria colher os seus santos, e louvar Deus diariamente por se ter ocultado ao homem. Mas seja fé ou agnosticismo, não pode ser nada exterior a mim. Os seus símbolos devem ser de minha lavra. Só é espiritual o que cria a sua própria forma. E se não for capaz de encontrar o seu segredo em mim mesmo, então nunca o encontrarei. Se não o possuir já, então nunca virá a mim.

A Razão não me ajuda. Diz-me que as leis pelas quais fui condenado são erradas e injustas, e que o sistema no qual sofri é errado e injusto. Mas de alguma forma tenho de tornar ambas as coisas justas e certas para mim. E exactamente como na arte só nos preocupa o que uma determinada coisa é para nós num determinado momento, assim é na evolução ética do nosso carácter. Tenho de tornar bom para mim tudo o que me aconteceu. […]

Quero chegar ao ponto em que serei capaz de dizer, com simplicidade e sem afectação, que os dois grandes pontos de viragem da minha vida foram quando o meu pai me mandou para Oxford e a sociedade para a prisão. Não direi que a prisão é a melhor coisa que poderia ter-me acontecido, pois essa frase teria um travo de excessivo azedume em relação a mim. Preferiria dizer, ou que de mim fosse dito, que fui tão tipicamente um filho do meu tempo que na minha perversidade, e por causa dela, transformei as coisas boas da minha vida em coisas más e as más em boas. Contudo, aquilo que por mim ou por outros é dito importa pouco. O que importa, o que se ergue no meus caminhos, o que tenho de fazer se não quiser permanecer, no que ainda resta dos meus dias, corrompido, desfigurado, e incompleto, é absorver na minha natureza tudo o que me fizeram, torná-lo parte de mim, aceitá-lo sem queixumes, medo ou relutância. A superficialidade é o supremo vício. Tudo aquilo de que tomamos consciência é bom.

Assim que fui preso, algumas pessoas aconselharam-me a tentar esquecer quem era. Eram um conselho desastroso. Só apercebendo-me do que sou pude encontrar alguma espécie de conforto. Agora outras aconselham-me, quando for libertado, a esquecer que estive na prisão. Sei que isso seria igualmente fatal. Significaria que eu seria perpetuamente atormentado por uma sensação intolerável de desgraça, e aquelas coisas a que tenho tanto direito como qualquer outra pessoa – a beleza do sol e da lua, o cortejo das estações, a melodia da aurora e o silêncio das grandes noites, a chuva a cair por entre as folhas, ou a geada a deslizar pela relva, tornando-a prateada – tudo isso estaria manchado, e perderia o seu poder curativo e o seu poder de comunicar alegria. Lamentar as nossas experiências é travar o nosso desenvolvimento; é transformar a nossa própria vida numa mentira. E é também uma negação da alma.

Oscar Wilde – De Profundis

Transporte do Ser

O carro que nos leva para esse lugar dentro de si pode muito bem ser a arte, como sempre.

Livro

Christine –  Stephen King. Esse foi o único livro que me fez sentir medo numa leitura, até hoje. Indico porque é uma diversão muito boa pra quem curte o gênero, e porque a despeito de tudo, o Rei Estevão é um contador de histórias muito competente. Tem o filme também, mas não me marcou tanto quanto o livro.


Christine é um romance de horror estadunidense com toques de suspense, escrito por Stephen King e publicado em 1983. Conta a história de um carro – um Plymouth Fury 1958 chamado Christine – que, aparentemente, possui vida própria.


Filme

Conduzindo Miss Daisy – 1993 – Bruce Beresford. Um carro que leva dois personagens a um lugar distinto do que tinham ao se conhecerem, Um dos filmes que marcaram minha juventude, e que na época me pareceu bonito, delicado, bem interpretado. Adorei. E  o tema tem muito a ver com a carta da semana. É um filme que vale à pena demais.


No sul dos Estados Unidos, senhora judia de 72 anos reluta em contratar um motorista negro mas, com o passar dos anos e a convivência diária, eles se tornam grandes amigos.


Série

O Poder e a Lei. 2022. Essa vai porque o carro leva o personagem principal em sua redescoberta pela vida, em uma segunda chance. É uma série divertida, gostosinha de ver, serve pra dar aquela fritadinha básica no cérebro enquanto descansamos.


O famoso advogado Mickey Haller assume os casos mais polêmicos e complicados da cidade de Los Angeles. Mas sua ambição e seus clientes o levam a tramas perigosas e conspirações.


♫ Playlist

Drive My Car – Beatles
Roberto Carlos – O Calhambeque
Pelados em Santos – Mamonas Assassinas
Fuscão Preto – Trio Parada Dura
Mercedes-Benz – Janis Joplin
Born To Be Wild – Steppenwolf
Ouro de Tolo – Raul Seixas
O Bom – Erasmo Carlos
The Clash – Brand New Cadillac
Kraftwerk – Autobahn
Vital e sua moto – Paralamas do Sucesso
Rua Augusta – Ronnie Cord


Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Quantos Césares fui!

♦
Álvaro de Campos

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Ainda chove, não graças a nós.

9 de fevereiro é o 40.º dia do ano no calendário gregoriano. Faltam 325 dias para acabar o ano (326 em anos bissextos).

 

]]>
https://almanaque.nalu.in/2025/02/09/como-vou-viver-sem-meu-carango/feed/ 7
https://almanaque.nalu.in/2024/12/30/um-cesto-de-alegrias-de-quintal/ https://almanaque.nalu.in/2024/12/30/um-cesto-de-alegrias-de-quintal/#comments Mon, 30 Dec 2024 03:06:20 +0000 https://almanalua.blog/?p=936 um cesto de alegrias de quintal

Belo Horizonte, 30 de dezembro de 2024

⛈ 19° – 25°


30 de dezembro é aniversário do meu querido amigo Radamés.



Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

♦

Alberto Caeiro

Escreveu Maria Gabriela Llansol em seu diário, num dezembro como o nosso:

Jodoigne, 30 de Dezembro de 1979

Anna Magdalena:
Termina-se ano de 79. Termino-o, ao nível deste Diário, na Cozinha que é uma sala de estar toda forrada de azulejos brancos, com uma janela de olhar para o alto, ao fundo; a sensação da cozinha foi a minha tendência / impressao dominante hoje, designou todo prazer da minha sensibilidade do meu canto que não é memória, nem conhecimento. É apenas uma partilha, herética /canora/ sonora, com uma morada; renunciámos a qualquer ideia de lar, palavra contrária à prática de liberdade e de sensualidade / música em que vivemos. Esta sala de estar é uma sala de ser da nossa natureza e, hoje, uma seda muito rala e leve.
Termina o dia. Principia a noite. Sinto o crepúsculo como um soro que se separa da claridade. O azul e as formas estão fechados comigo nesta arca, sem vestuário nem adereços. Mas há uma pessoa que tem essa voz que exprime o que canto, e que o inscreve novamente.
De súbito, batendo no vidro, recebo um poema de Aossê*
Respondo-lhe quase no mesmo instante:
«Como é que se lembrou de enviar-me um poema? Sobrecarregar-me com mais ser? Ou aliviar-me de uma certa dor?
Guardo-o até o entender.»

Maria Gabriela Llansol – O Azul Imperfeito – Livro de Horas V (Pessoa em Llansol) Ed. Assirio & Alvim

* Aossê ou AOSSEP, anagrama de Pessoa, que resulta da leitura e escrita que Llansol fez do poeta Fernando Pessoa na sua obra, ao longo de toda a sua vida.


Um Arcano para 2025

“Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova!
Ela já está surgindo! Vocês não a reconhecem?
Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.
Isaías 43:18-19 

Cansaço, problemas de saúde e uma lesão na cervical que está irradiando dores para o braço e a mão direita não estão me deixando digitar, preciso poupar a coluna/braço. Mas embalada pelo clima de fim de ano (que eu adoro, apesar do luto que se intensifica) eu fiquei vários dias pensando que queria uma carta para o ano que vai começar. E apesar de não ser a carta que eu escolheria para começar o ano (eu SEMPRE escolheria o Mundo), conclui que não poderia ter carta melhor. O mundo tá um caos, o fim do mundo se apresenta nem que seja como metáfora, as guerras não pararam, a catástrofe climática, a pobreza, a extrema direita fungando no nosso cangote… Ufa, não precisa de dizer mais, apesar de ter muito mais.

Mas estamos vivos, ainda estamos vivos das mais diferentes maneiras, e continuamos, temos que continuar, porque ainda estamos aqui.

E foi assim que chegou para 2025 o Pajem de Ouro, o mensageiro das bençãos que se materializam. Esse Pajem, que também é uma Princesa, é quem toma o imaterial e transforma em material. Material, Real. Não necessariamente físico, mas quantificável, sabível. Ele transforma o que ainda não é benéfico em bençãos, em bens. E o espírito de um ano que começa se dá muito bem com esse Arcano. Podemos pensar em todo o patrimônio imaterial que nos compõe, em todo repertório que acumulamos durante nossa vida e que culmina agora, nesse momento. Somos neste momento tudo que colocamos dentro de nós, o que acumulamos como arsenal de sabedoria, de remédio. Temos nossa farmácia interna que nos ajuda em nossa cura e nossa travessia. Tudo que vimos, ouvimos, lemos, vivemos e nos deleitamos é nossa botica de vida.

O Tarólogo Leo Chioda diz a respeito do pajem

✨ O Pajem de Ouros, é bênção e demanda. Tanto lhe oferece oportunidades quanto lhe apresenta aquilo que merece atenção. Não há tempo para se manter na desordem e fingir que as coisas não estão acontecendo. Dá pra ser feliz na medida em que você se mostra cada vez mais responsável pelo que tem, pelo que quer e pelo que faz.
O Pajem de Ouros materializa, dá forma, torna real o que deve ser cuidado, melhorado e resolvido na sua vida. O Fim de ano é tempo de balanços, de listas de melhores isso e aquilo, de contabilidades mil.

Eu sempre adorei listas, catálogos e contabilidades, e isso no começo de um ano é da alçada desse Pajem. Os pajens/princesas são mensageiros, eles levam, eles trazem, eles sopram as boas novas. Todos os meses eu faço o inventário de tudo de intenso, interessante que aconteceu comigo. Eu anoto o que chamo de recheios do mês, aquelas coisas que “aumentam meu mundo”. Todos os encontros com amigos, todas as coisas legais que aconteceram, tudo o que li, vi, ouvi, celebrei. E isso é a minha farmácia particular, tão infinita. O Pajem de Ouros pega estes inventários e transforma em escudos, em recursos, em cura e sobrevivência. Pense em tudo que você entesourou dentro de si esse ano, (em todos os anos) e que te fortalece e serve de remédio e de caminho. Tire a poeira dessa drogaria e comece a usar em si. Pode funcionar, quem sabe?

A maravilhosa poeta Alejandra Pizarnik tem um conselho sobre isso:

“Que este ano me seja dado viver em mim e não fantasiar nem ser outras, que me seja dado me colocar boa e não procurar o impossível mas sim a magia e estranheza deste mundo que habito. Que me sejam dados os desejos de viver e conhecer o mundo. Que me seja dado o interesse por este mundo.”

Que a todos nós sejam dadas estas sagrações.

O Pajem de Ouro é benção e fortuna, é a sorte sorrindo. De dentro de si, de dentro para fora, sentinela esperando que você dê forma aos seus tesouros e coloque tudo que juntou dentro de si como força e remédio. Use seu repertório, seu arsenal. Tudo que você viveu, desfrutou e sofreu pode ser a matéria do seu pensamento que vira abrigo e força. É o que não mata. Tudo o que te criou, todo curare de cobra.

Eu fiz um balanço do que me fortaleceu esse ano, e não foi pouca coisa, pensando muito bem. Tenho certeza que todos podemos achar esse pedaço que não é inferno.

Feliz ano todo queridos, nos vemos em 2025, cada vez mais fortalecidos para enfrentar o que venha.

Princesa de Ouros

A Princesa, ou Pajem de Ouros é uma carta que traz consigo uma série de bençãos e energias positivas. Ela representa a materialização dos sonhos e a concretização de projetos, trazendo consigo a promessa de prosperidade e crescimento. Essa carta está relacionada com a juventude, a energia e determinação. Ela nos ensina que, por mais que tenhamos grandes sonhos e desejos, é necessário agir de forma prática e realista para transformá-los em realidade. Uma das principais bençãos trazidas por essa carta é a capacidade de enxergar oportunidades onde outros veem apenas obstáculos. Ela nos encoraja a sermos criativos e a explorar novas possibilidades, sempre com os olhos voltados para o futuro. A energia do Pajem de Ouros nos impulsiona a buscar novos caminhos e a não nos contentarmos com a mesmice, incentivando-nos a buscar sempre o crescimento e a evolução. Além disso, essa carta também está associada à segurança e estabilidade material. Ela nos lembra da importância de cuidar das nossas finanças e de planejar o nosso futuro de forma responsável. O Pajem de Ouros nos incentiva a sermos prudentes e a agir com sabedoria em relação ao nosso dinheiro, garantindo assim uma base sólida para a construção dos nossos sonhos. Outra benção trazida por essa carta é a capacidade de aprender com as experiências do dia a dia. O Pajem de Ouros nos lembra da importância do estudo e do aprendizado contínuo, incentivando-nos a buscar conhecimento e a nos aprimorar constantemente. O Pajem de Ouros traz consigo uma série de bençãos que nos ajudam a materializar os nossos sonhos, cuidar da nossa estabilidade material, buscar conhecimento e enriquecer nosso mundo e nosso interior. Com essas energias positivas ao nosso lado, somos capazes de transformar os nossos desejos em realidade e construir um futuro próspero e abundante.

Um texto que junta nossas tralhas e faz beleza

Abro as portas que dão acesso ao repertório que criei nesses 30 anos e dou de cara com estantes repletas de livros, sabores, músicas, lugares, filmes, cheiros e texturas que fazem de mim isso que me tornei.
A literatura e a música são, até hoje, as minhas principais companhias. Responsáveis por trazer conforto em dias difíceis, alegria em dobro nos dias bons e movimento nos dias tediosos. São também elas que criam perguntas e respondem tantas outras. São nascente e foz dos meus planos e sonhos.
Mas mesmo com essas certezas todas sobre o que gosto, vez ou outra ainda me pego distraída com coisas que não tem nada a ver comigo. O acúmulo de informações imensamente maior do que eu sou capaz de processar me devora antes do meio dia.
[..] Ao assistir “Dias Perfeitos” fiquei muito encantada com o que vi, mas não sabia dizer exatamente o que havia me causado o famoso quentinho no coração.
Revendo, notei que o que mais me trouxe encanto foi o quão satisfeito e preenchido Hirayama sentia-se com a própria rotina, com sua coleção de fitas e a repetição dos mesmos hábitos semana após semana: trabalhar, ler, fotografar árvores, revelar as fotos, regar as plantas.
Repetição esta que pode até soar tediosa para alguns, mas que pra ele funcionava como um lembrete diário de que já possuía uma vida repleta de coisas de seu interesse e que isso era suficiente.
E é justamente esse exercício – de olhar para quem eu sou, o que gosto e o que já possuo, que me ajuda a criar filtros criteriosos quanto ao que não merece a minha atenção (o meu dinheiro, o meu tempo…). Gosto da ideia de ter desenvolvido preferências que expressem quem eu sou de maneira tão fiel e de como isso me mantém longe de ser corrompida por tantas influências externas (mesmo sendo uma pessoa cronicamente online).
Carregar com orgulho a minha pastinha cheia de referências, além de me salvar da mesmice ditada pelos algoritmos, me serve também como um lugar seguro: se tudo der errado (e dá muitas vezes) eu sempre terei para onde retornar – as minhas músicas, aos meus comfort movies, ao moletom da minha cor favorita e as pequenas alegrias que fazem com que a minha existência flutue mais do que pese.

*

Manter o olhar atento a quem somosao mundo e a quem somos no mundo é a prática de se fazer presente com atenção e isso é muito difícil hoje em dia. A gente pula do Tiktok para o Instagram, lemos o pedaço de um livro enquanto ouvimos um podcast, falamos com um amigo enquanto lavamos louça… Vagando entre ambientes, pessoas e conteúdos sem estar realmente em nada. Como saber do que gostamos, de verdade, quando estamos sempre tão distraídos?

Tamires Correia – Inventário de Gostos

https://umpasso.substack.com/p/inventario-de-gostos

Botica de errores

Essa seção de hoje vai ser o inventário de tudo que tornou meu mundo maior e mais saboroso esse ano, para meu registro e para servir de ideia. O escritor Rafael Gallo disse no instagram que faz e lê essas listas de melhores isso e aquilo (no caso dele, livros) porque acredita que sugerirmos uns aos outros algumas leituras é uma ajuda bem-vinda e funciona. Eu também acredito nisso, e como muitas vítimas que me leem sabem, adoro listas e para mim elas funcionam, mesmo que eu nunca siga nenhuma. Desculpa, Isa (mas eu sei que você também curte, apesar de. 😉  )
Então aí vai o inventário, o meu lenitivo e farmácia de 2024. O que vai ficar e o que me curou.

O melhor livro de 2024

O Deserto dos Tártaros – Dino Buzzati. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Como esse livro me impactou. É um livro gostoso de ler, fluido, fácil, mas ao mesmo tempo é uma porrada. São reflexões sobre a espera e a passagem do tempo, a condição humana, a tensão entre o mundo real e o mundo ideal. Drogo, o protagonista, vive na expectativa da invasão dos tártaros, um evento grandioso que justificará sua vida e trará sentido à sua existência. Essa espera levanta a questão de quantos de nós passamos a vida à espera de algo que nunca se concretiza, negligenciando o presente em favor de uma promessa de plenitude futura. O tempo é retratado como uma força que destrói as ambições e sonhos. A juventude, inicialmente vista como uma promessa, é consumida pela monotonia. O envelhecimento é a irreversibilidade do tempo e diz como a vida frequentemente se esvai sem que alcancemos as nossas tantas metas. Eu também fiquei tocada com a solidão que permeia a vida que levam os personagens e que lembra as experiências contemporâneas de alienação. A sensação de isolamento e angústia existencial dos personagens diante da espera interminável e da passagem inexorável do tempo. É um livro que permanece. Mesmo que destrua algumas coisas, constrói outras. Recomendo demasiadamente (risos).


O Deserto dos Tártaros  é uma jornada pela complexidade da alma humana. Nesta obra-prima de Dino Buzzati, você será levado a uma atmosfera carregada de expectativa e reflexão sobre a vida e o tempo que passa. A história do jovem tenente Giovanni Drogo, destinado a um posto remoto no forte Bastiani, é uma metáfora arrebatadora da espera e da busca por significado na existência. Você irá se identificar com as emoções de Drogo, sua alegria inicial, o senso de dever e, eventualmente, a melancolia que acompanha a espera por um inimigo que parece nunca chegar. Este livro é um convite à reflexão sobre como a vida pode nos surpreender, nos confrontando com a passagem do tempo e a busca por propósito. O Deserto dos Tártaros  é mais do que um romance; é uma experiência literária profunda que tocará a alma de qualquer leitor em busca de uma narrativa que ressoa muito além das páginas.


As melhores leituras de 2024


Melhor Filme de 2024

Foi difícil escolher entre os filmes, pois vi alguns muito bons. Para o espírito desse post talvez eu devesse ter escolhido Dias Perfeitos. Que é um filme que nutre, que inspira, é bonito, moderno, é Wim Wenders. Ou Pobres Criaturas, que é um filme sobre o desejo humano de fazer justamente o que esse post diz, aprender, explorar, juntar experiências, se jogar no mundo. É o que Bela, a personagem principal do filme faz. Bela está construindo seu repertório de belezas e angústias neste mundo. Podia mesmo ter escolhido o Ainda Estou Aqui, sobre uma mulher cuja vida é uma tremenda inspiração. Todos estes filmes estão recomendadíssimos também. Mas vou falar de um filme que é uma obra-prima real. Uma joia do cinema, um filme imperdível e foi indicação do meu amigo Radamés e do diretor Karim Aïnouz num podcast. Esse filme me emocionou, impactou, incomodou e está comigo até agora, todos os dias, desde que eu assisti. É do primeiro diretor por quem eu me interessei como cineasta ainda lá no fim dos anos 80, quando nem gente direito eu era. 



O Medo Devora a Alma –  Rainer Werner Fassbinder – Alemanha Ocidental, 1974. Um romance quase acidental é aceso entre uma alemã de sessenta e poucos anos e um trabalhador migrante marroquino cerca de vinte e cinco anos mais jovem. Essas duas pessoas separadas pela idade e raça decidem abruptamente se casar, causando um escândalo entre todos à sua volta.


Mais um Filme

A Canção da Estrada – Satyajit Ray – Índia, 1955. Quase no fim da linha (ontem) eu assisti um filme que é tão belo, mas tão belo que preciso colocar aqui. A história de como foi feito já é uma novela em si. Mas o filme é outra obra-prima e igualmente foi indicação do aniversariante do dia, o meu amigo Rada, que tem um gosto impecável para tudo nessa vida. É um filme lindo, um deleite para os sentidos. Muito triste, mostra como a miséria parece tão semelhante mundo afora, épocas adentro. Assistam, é imperdível.


No início do século 20, Apu é um menino pertencente a uma pobre família brâmane de um vilarejo na Índia. Seu pai, poeta e sacerdote, é forçado a deixar seus entes queridos em busca de trabalho. Uma das obras-prima do cinema mundial, inédita no Brasil e nas Américas. Este filme foi a estréia espetacular de Satyati Ray. Recuperada a finais dos anos 90, pois um incêndio destruiu os negativos originais, esta é a primeira fita, que deu origem a Trilogia de Apu. Nela se narra a comovente história de uma família de Bengali perseguida pela má sorte. O pai, Harihara, é um sacerdote mundano, curandeiro, sonhador e poeta. Sabajaya, a mãe trabalha para alimentar a uma família, que recebe com alegria e esperança a chegada de um novo filho, Apu.


Documentário do ano

A Vida e Arte de Stanisław Szukalski – Ireneusz Dobrowolski – 2018. Eu já falei desse documentário aqui, e não vi outro melhor esse ano. E além de ter sido o que mais apreciei, ele tem tudo a ver com espírito do arcano que vai nos acompanhar em 2025. Esse artista, polêmico, que era muitas vezes imperdoável tinha dentro de si um arsenal extraordinário, que ele soube usar como poucos, talvez sendo até o que não lhe deixou sucumbir nem enloquecer. E a própria arte dele é algo que quando entramos em contato, o nosso mundo aumenta, sem dúvida nenhuma.


O documentário sobre o melhor (do) Pajem de Ouros.

Só dez por cento é Mentira – Pedro Cezar –  Brasil, 2008. Esse documentário está aqui porque foi ele que mudou algo de forma muito particular em mim. foi depois que vi esse documentário que a noção de aumentar o mundo, aumentar o meu quintal cresceu dentro de mim e me deu uma força que eu precisava demais naquele momento. Foi a partir desse concieto totalmente conectado com o Pajem de Ouro que eu percebi o quanto temos diante de nós toda uma possibilidade infinita de viver o mundo e a vida com maiores janelas, portas e quintais. e está aqui também porque o poeta Manoel de Barros me lembra muito o meu amigo que aniversaria hoje, ele, que aumenta meu mundo toda vez que nos encontramos.


O documentário Só dez por cento é mentira traz uma entrevista inédita com Manoel de Barros, que até então nunca tinha se deixado filmar para tais fins. Seguindo a lógica – se pode se chamar assim – da obra do poeta, o documentário investe em produção ficcional, dramaturgia, representações gráficas e linguagem visual inventiva para narrar o universo extraordinário criado por Manoel de Barros.


O Melhor post

Da minha sobrinha, sobre minha mãe, um texto que emocionou todos nós e que nos fez ver quanto do nosso repertório se deve à essa mulher que foi minha mãe. E como estamos todos os dias, construindo nosso arsenal pessoal a partir do amor e da vida que ela nos deu.

https://sank0fa.blogspot.com/2024/12/conto-de-areia.html


♫ A Playlist de 2024

Try – Pink
Vapor Barato – Gal Costa
Meu Amigo Radamés – Tom Jobim
Hasta la Raíz – Natalia Lafourcade
Sin Más – Buenos muchados
Me olvide de vivir – Julio Iglesias
Alibi – Pablo Vitar
Infinito Particular – Marisa Monte
Fullgás – Marina
Daniel – Elton John
Maria la Curandera – Natalia Lafourcade
Andar com fé – Gilberto Gil
Killing me softly – Roberta Flack
Don’t let me be misunderstood – Nina Simone
Serpente – Pitty
Água de Beber – Tom Jobim
Nuvem Passageira – Hermes de Aquino
Meninos e Meninas – Legião Urbana
Just give me a reason – Pink
If You Believe – (feat. Patch Crowe) Strive to Be
Fast Car – Tracy Chapman
Conto de Areia – Clara Nunes
Disritmia – Martinho da Vila
Lucro – Baiana System
Quem sabe isso quer dizer amor – Milton Nascimento
Casa de Bamba – Martinho da Vila


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?♦
Carlos Drummond de Andrade

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Muita chuva de Verão, graças a todo panteão.

30 de dezembro é o 364.º dia do ano no calendário gregoriano (365.º em anos bissextos). Faltam 1 dia para acabar o ano. \o/

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/12/30/um-cesto-de-alegrias-de-quintal/feed/ 8
https://almanaque.nalu.in/2024/11/03/apenas-a-materia-vida/ https://almanaque.nalu.in/2024/11/03/apenas-a-materia-vida/#comments Sun, 03 Nov 2024 03:03:15 +0000 https://almanalua.blog/?p=926 apenas a matéria vida era tão fina

Belo Horizonte, 03 de novembro de 2024

☔19°-  27°

3 de novembro é o Dia da instituição do direito de voto da mulher no Brasil.  Em 1793 a dramaturga, ativista política, feminista e abolicionista francesa Olympe de Gouges foi guilhotinada. Em 1930 Getúlio Vargas tomou posso como Presidente do Brasil. Em 1953 estreou um dos mais belos e importantes filmes da história do cinema, Era Uma Vez em Tóquio, dirigido por Yasujirō Ozu. Em 1957 a cachorrinha Laika foi lançada ao espaço pela União Soviética se tornando o primeiro ser vivo no espaço. Infelizmente não era previsto que a pobrezinha voltasse. Em 1993 estreou a série/sitcom The Nanny (alguém lembra? Eu via e gostava). Em 1998 estreou o filme vencedor do Oscar Shakespeare Apaixonado. Em 1928 nasceu Osamu Tezuka, em 1959 Hal Hartley. Em 1867 morreu Domitila de Castro Canto e Melo e em 2023 partiu Elizângela


Quando me perguntam
como comecei a escrever poesia,
eu falo da indiferença da natureza.
Foi logo depois que minha mãe faleceu,
um brilhante dia de junho
no qual tudo florescia.
Sentei-me em um banco de pedra acinzentado
em um jardim carinhosamente cultivado,
mas os lírios eram tão surdos
quanto os bêbados adormecidos
e as rosas encurvadas para dentro.
Nada estava enlutado ou quebrado,
nem uma folha caiu
e o sol ressoava infindos comerciais
de férias de verão.
Sentei-me em um banco de pedra acinzentado
cercado das ingênuas faces
das rosas e das não-me-toques brancas
e depositei minha dor
na boca da linguagem,
a única coisa que sofreria comigo.
♠
Lisel Mueller

No dia 3 de novembro de 1977, alguns dias após a morte de sua mãe, Roland Barthes escreveu em seu diário do luto:

3 de novembro

Por um lado, ela me pede tudo, todo o luto, seu absoluto (mas então não é ela, sou eu que a encarrego de me pedir isso). E, por outro lado (sendo então de fato ela mesma), ela me recomenda a leveza, a vida, como se me dissesse ainda: “vá, saia, distraia-se … “

Roland Barthes – Diário de Luto – Ed. Martins Fontes – trad. Leyla Perrone-Moisés


O bom nome é melhor do que um perfume finíssimo, e o dia da morte é melhor do que o dia do nascimento.
Eclesiastes 7:1

O Salário do Pecado

Hoje é domingo, 3 de novembro de 2024. Um dia depois do dia de Finados. E para hoje eu escolhi essa carta. Ela já tinha saído como oráculo num dia em que por motivo diverso eu não pude postar. E como é em geral uma carta assustadora, resolvi deixar para o domingo seguinte ao Dia de Finados. Ou seja, não é uma carta sobre a sorte da semana, não foi realmente sorteada, embora sempre possamos contar com a dimensão mágica do tarô. O que significa dizer que não é a sua “sorte da semana”.

Essa carta é uma das mais famigeradas do tarô, o Nove de Espadas. Para o momento o luto é a reflexão desta carta, embora ela tenha alguns outros significados. É sobre essa condição que existe a reflexão desde ontem, ainda que na dimensão coletiva, social. É o momento para refletir sobre as pessoas que perdemos durante nossa vida.

Todas as culturas ou quase todas, têm rituais para a lembrança e honra dos mortos. Todas as religiões são negociações com nosso medo da morte. Erigimos civilizações inteiras, modos de vida, arte, cultura ciência etc, tudo por causa do nosso medo da morte. E perder alguém nos confronta com a realidade inescapável da Indesejada das Gentes, para além da dor da própria perda.

Perder alguém que amamos é uma das piores experiências da existência, e muito dificilmente alguém chega à idade adulta sem ter perdido ninguém importante. E o luto é essa onda avassaladora que nos atordoa e dita toda nossa experiência quando chega. O luto, como bem disse uma amiga, não é um momento, o luto é uma condição. Que vai acompanhar a nossa restante vida. O luto pode ser destruidor, muitas pessoas não conseguem se recuperar dessa condição. E à parte os preceitos que dizem que o luto nos torna melhores, que é um aprendizado etc., (todos preferiríamos não passar por esse aprendizado) o luto realmente reorganiza o que somos, o que fazemos e o que pensamos.

Uma pessoa amada quando morre, parece enterrar com ela toda história que viveu conosco que ficamos, pensamos que esse pedaço da nossa história seria acabado com o momento em que a outra pessoa finda. Mas como disse Hemingway numa carta belíssima, ninguém que amamos realmente está morto. A história que vivemos está em nós, está conosco. Outra frase muito famosa e muito certeira é a que foi escrita pelo psiquiatra Colin Murray Parkes: O luto é o preço do amor. Se o luto é imenso é porque o amor e a história que temos com aquela pessoa também foi imenso. O sofrimento acontece também por toda a história que não teremos mais com aquela pessoa.

Falo do luto pelas pessoas amadas, mas ele não se limita a isso, sabemos. Existem vários lutos, e todos são dolorosos e nos jogam em outra dimensão, mas o foco em seguida ao Dia de Finados, são as pessoas amadas que se foram. Ou as pessoas que, se não eram amadas, representaram um papel importante na nossa história. E em geral, a nossa própria história fica muito importante no momento do luto, é uma esquina rumo ao desconhecido que é dobrada, entramos no luto e não sabemos como vamos sair. Podemos sair mais fortes ou com uma história melhor. Já dizia Hannah Arend, “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. É aí que pode estar uma das viradas do sofrimento atroz do luto, quando entendemos que os mortos vivem em nós e não se acabam enquanto viverem na lembrança de alguém, que há uma história sobre eles e sobre nós. Essa vida na lembrança é uma vida ativa.

O Nove de Espadas, entre outras coisas é essa dor atroz da perda de um ser amado. É nosso confronto com a mortalidade. É o fim de um mundo como conhecíamos. Ele é o lamento sobre nossas perdas. A reflexão de hoje é sobre isso. É sobre saber encontrar dentro de si tudo que foi vivido com a pessoa que se foi. Porque essa história vivida não não morre. As pessoas que amamos estão vivas em nós, sempre. E reconfiguram a nossa história quando se vão, ainda que pareça que o nosso novo estado é um estado quebrado, roto, incompleto.

Muito já foi dito e escrito sobre o luto, o luto realmente é esse abismo, esse toque no que é transcendente, não precisamos nos alongar mais, além de honrar o 9 de espadas e dizer que ele pede uma reflexão sobre os lutos de nossa estrada, é um bom momento para isso.

Existe vida pela frente quando perdemos alguém, ainda precisamos nos reorganizar para seguir em frente. E se o sofrimento é atroz, a história de cada um de nós fica mais rica.

Boa semana, nos vemos em Samarra qualquer dia destes.

A carta de tarô 9 de espadas é frequentemente associada ao luto e à tristeza. Ela representa a angústia, a preocupação e a dor emocional que acompanham a perda de alguém querido. Quando essa carta aparece em uma leitura de tarô, ela sugere que a pessoa está passando por um período de profundo sofrimento e tristeza. A perda de alguém próximo pode desencadear uma série de emoções intensas, como tristeza, raiva, culpa e desespero. O 9 de espadas reflete essa intensidade emocional e a sensação de estar sobrecarregado pela dor. Embora o 9 de espadas represente um momento de profunda tristeza e luto, ele também oferece uma mensagem de prosseguimento. Assim como todas as cartas do tarô, essa carta é um lembrete de que as emoções são inevitáveis e que o sofrimento eventualmente dará lugar à cura. O luto é um processo difícil, mas com o tempo e o apoio adequado, é possível encontrar significado com a sua passagem. Durante esse período desafiador, é fundamental permitir-se sentir todas as emoções que surgem, e lembrar que não há receita nem prescrição, cada luto é um abismo próprio que é preciso enfrentar por si. Nosso alento é que essa não é a carta da semana, a não ser como reflexão.

Só perdemos o que não temos

A posse do ontem
Sei que perdi tantas coisas que eu não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores. Como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre a meu lado. Quando quero escandir os versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Ilíon passou, mas Ilíon perdura do hexágono a que chora. Israel aconteceu quando era uma antiga nostalgia. Todo o poema, com o tempo, é uma elegia. Nossas são as mulheres que nos deixaram, já não sujeitos à véspera, que é angústia e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos que não sejam paraísos perdidos.
♠
Jorge Luis Borges 

 Toda nossa arte é uma tentativa de escapar do luto

Eu me interesso muito sobre literatura e luto, cinema e luto. Tenho uma lista que está um pouco desatualizada, com cerca de 100 livros sobre luto, livros que li e livros que quero ler. Está aqui. A arte sobre o luto é maravilhosa, talvez porque esse seja o sentimento mais abissal que experimentamos e precisamos saber, e jamais saberemos.

Livros

De Amor e Trevas – Amós Oz. Trad. Milton Lando. Esse livro está entre os 5 livros que eu mais amo. É a história que amós Oz conta sobre a morte da sua mãe, e conta em paralelo com a história dos judeus na Europa. é a história de uma mãe que se mata e que deixa num filho pequeno uma marca indelével, uma tristeza incomensurável e que faz com que ele leve mais de 70 anos para conseguir falar sobre. É muito bonito, obviamente bem escrito, é Oz. É histórico. E triste. Mas vale demais a leitura, não tenho como recomendar mais.


Entre a autobiografia e o romance, De amor e trevas é a extraordinária recriação dos caminhos percorridos por Israel no século XX. O livro extrai sua grandeza da simplicidade de um gesto narrativo que faz do olhar de um menino o fio condutor de uma história vigorosa e bela da constituição da identidade de um garoto e uma nação. Essa confluência é sintetizada em cenas que marcaram a memória do escritor. Confrontado com o suicídio da mãe aos doze anos, três anos depois Oz declara sua independência e volta as costas para o mundo em que crescera a fim de assumir uma nova identidade num novo lugar: o kibutz Hulda, na fronteira com o mundo árabe.


Sonhei que a neve fervia – Fal Azevedo. É um dos meus preferidos também, e é um livro que fez uma revolução dentro de mim. Eu já li mais de uma vez e toda vez fico igualmente emocionada. Recomendo demais. 


“Não deixe que a dor cale suas palavras”, dizia o e-mail que a escritora e tradutora Fal Azevedo recebeu dias após a morte do marido, Alexandre, em agosto de 2007. Mas como continuar depois uma perda como essa? Como acordar, escovar os dentes, trabalhar? A incredulidade, a raiva e a tristeza, e também o relato do amor de uma vida e da solidariedade e carinhos oferecidos por amigos e desconhecidos estão em Sonhei que a neve fervia, novo livro da autora de Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. E em meio à dor, Fal (re)encontrou sua voz – culta, engraçada, ferina, auto-depreciativa, mas, ao mesmo tempo, brutalmente honesta e transparente. É pela escrita – seja por meio de textos publicados em seu blog, o popular “Drops da Fal”, reflexões, e-mails e mensagens de amigos e seguidores do site – que o leitor acompanha a jornada da autora. Às vezes, impotente diante da impossibilidade de mitigar um sofrimento tão além do que parece ser possível; outras, com um sorriso no rosto e uma gargalhada ao ler um comentário espirituoso. Entre detalhes do cotidiano, como os transtornos causados por um cano furado, e reflexões sobre o luto e a luta, Fal Azevedo deixa um testamento de sua história – a história de um grande amor. Por isso mesmo tão singular, e tão universal.


Filme

A Liberdade é Azul – Krzysztof Kieślowski – 1993. Um dos filmes mais bonitos que você vai ver na sua vida. O meu favorito sobre luto, sobre perda. Lindo, triste, tocante demais. Uma obra prima. Também é dos que estão no meu Olimpo. 


Julie perde sua filha e o marido compositor em um trágico acidente de carro. Agora sozinha, ela abandona sua antiga identidade e explora sua nova liberdade. Porém, descobre que está ligada a outros humanos, incluindo a amante do marido, cuja existência ela nunca suspeitou.


Série

After Life – 2019-2022 – Ricky Gervais. Já indiquei essa série. Gosto demais dela, é uma grande história sobre luto, sobre o abismo que é o luto. 

“After Life”, a série, parte do ponto cinza em que luto se inicia: sobreviver a uma grande perda. Ao longo de 18 episódios, obedece o vai e vem dos ciclos caóticos do processo, temperados pelo humor ácido, a raiva e o desencanto com a vida do personagem central, Tony, cuja mulher, Lisa, morreu, vítima de um câncer. After Life se desenvolve em torno de Tony, cuja vida é virada de cabeça para baixo depois que sua esposa morre de câncer de mama. Ele contempla o suicídio, mas decide viver o suficiente para punir o mundo pela morte de sua esposa, dizendo e fazendo o que der na telha. Embora ele pense nisso como seu “superpoder”, seu plano é prejudicado quando todos ao seu redor tentam torná-lo uma pessoa melhor


HQ

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi. Trad. Drik Sada. Uma HQ delicada e nostálgica. Uma reflexão sobre o luto e o remorso. Uma bonita mensagem sobre o estrago que a incomunicabilidade causa e sobre as consequências do ser tarde demais.


Premiado no Festival de Angoulême e pelo restante da Europa, conheça um dos maiores clássicos de Jiro Taniguchi! Um mangá poético e comovente sobre família, raízes e a necessidade de redescobrirmos nossas próprias memórias. Yoichi Yamashita se distanciou do próprio pai. Absorvido pelo trabalho e remoendo o rancor de algumas memórias turvas, ele não o visita há mais de uma década e guarda poucas lembranças boas sobre a convivência entre eles. Por isso, quando recebe a notícia da morte do pai pelo telefone e se vê obrigado a viajar para Tottori, sua terra natal, para o velório, Yoichi não sabe muito bem como se sentir… nem o que esperar. Mas conversando com familiares e pessoas que o conheceram, ele aos poucos descobre um homem totalmente diferente do que se lembrava. À medida que rememora imagens de um incêndio que devastou a cidade, uma difícil separação, e a chegada de uma nova “mãe”, aquele que antes lhe parecera somente uma figura paterna ausente e fria começa a se tornar um personagem mais complexo.Essa HQ foi vencedora do Prêmio do Júri no Festival de Angoulême; considerada o Melhor Clássico no Festival Amadora, em Portugal; ganhou o prêmio Attilio Micheluzzi, na Itália; o Sproing, na Noruega; foi indicada ao Eisner como Melhor Publicação Estrangeira nos EUA e, na Espanha, venceu o Haxtur, a Feira Internacional de Quadrinhos de Madrid e o Salão Internacional de Quadrinhos de Barcelona.


♫ Playlist

Ne me quitte pas – Nina Simone
O Divã – Roberto Carlos
Noites Traiçoeiras – Pe. Marcelo Rossi
Tears in Heaven – Eric Clapton
Coração de Luto – Teixeirinha
The Scientist – Coldplay
Love In The Afternoon – Legião Urbana
Naquela Mesa – Nelson Gonçalves
Black – Pearl Jam
Vento No Litoral – Legião Urbana
Hurt – Johnny Cash
Canto Para a Minha Morte – Raul Seixas
Não tenho medo da morte – Gilberto Gil
Epitáfio – Titãs
Grief – Nick Cave
Death With Dignity – Sufjan Stevens
Like a Stone – Audioslave
Beloved – Mumford & Sons
Morte de um poeta – Alcione
Aonde Quer que eu Vá – Paralamas do Sucesso
The Scientist – Coldplay
American Pie – Don McLean


Link

Um documentário sobre o luto de pessoas que se suicidaram


A dor pela morte de uma pessoa amada, quando chega, não se parece nada com o que esperávamos. Não foi o que senti quando meus pais morreram: meu pai morreu quando faltavam poucos dias para seu aniversário de oitenta e cinco anos, e minha mãe um mês antes de completar noventa e um, ambos depois de vários anos de crescente debilidade. O que senti em ambas as ocasiões foi tristeza, solidão (a solidão do filho abandonado, qualquer que seja a idade), pesar pelo tempo perdido, pelas coisas não ditas, pela minha incapacidade de compartilhar ou até mesmo de admitir de forma real, no fim, a dor, a impotência e a humilhação física que ambos experimentaram. Eu entendia que a morte dos dois era inevitável. Tinha passado a vida esperando (temendo, antecipando, imaginando) aquelas mortes. Quando por fim chegaram, permaneceram a certa distância, separadas do cotidiano da minha vida. Depois da morte de minha mãe, recebi uma carta de um amigo de Chicago, um antigo sacerdote Maryknoll, que intuiu com precisão o que eu sentia. A morte de um dos progenitores, escreveu ele, “apesar de estarmos preparados e, na verdade, apesar de nossa idade, desloca coisas profundas em nós, desencadeia reações que nos surpreendem e que podem libertar memórias e sentimentos que julgávamos há muito esquecidos. No período indeterminado que chamamos de luto, é como se estivéssemos em um submarino, em silêncio sobre o leito do oceano, sentindo a carga da profundidade, ora perto ora longe, açoitados por recordações.”

O Ano do Pensamento Mágico – Joan Didion

Se alguém perguntar
aonde foi Sokan
diga apenas:
“Tinha coisas a fazer
no outro mundo”.

Yamazaki Sokan

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Primavera e muita gente estranha.

3 de novembro é o 307.º dia do ano no calendário gregoriano (308.º em anos bissextos). Faltam 58 dias para acabar o ano.

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/11/03/apenas-a-materia-vida/feed/ 1
https://almanaque.nalu.in/2024/10/20/eu-durmo-no-chao/ https://almanaque.nalu.in/2024/10/20/eu-durmo-no-chao/#comments Sun, 20 Oct 2024 03:44:07 +0000 https://almanalua.blog/?p=917 eu durmo no chão

Cataguases, 20 de Outubro de 2024

☔21º-24º


20 de Outubro é Dia Nacional do Poeta e Dia Nacional da Filantropia. Neste dia em 1854 nasceu Arthur Rimbaud. Em 1882 Béla Lugosi, em 1946 Elfriede Jelinek, em 1952 Eliane Giardini, em 1953 Maria Zilda Bethlem, em 1958 Viggo Mortensen e em 1964 Kamala Harris 🍀. Em 2015 morreu Yoná Magalhães.


“O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que estava encarniçadamente prendendo.
E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou perdendo nada!
E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre!
Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso do ser.
Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar.
Não ter pois avareza com esse vazio-pleno: gastá-lo”.

Clarice Lispector



Em 20 de outubro de 1942 escreveu Miguel Torga em seu diário:

Coimbra, 20 de Outubro de 1942 – Isto da minha falta de saúde aperta, e é pena. Já agora gostava de ver o fundo ao saco. Sempre queria assistir ao final deste esbracejar do mundo, e verificar se da noite de angústia em que vivemos sai na verdade a esperada flor de lótus duma cultura adulta, ou acaba tudo na desilusão dum parto monstruoso. No primeiro caso, a coisa era tão bela que me recompensava das mil deceções que tenho tido; no segundo, que Deus arrede, salvava-se pelo menos a originalidade do fenómeno. Até aqui as civilizações caíram de esgotamento; pois estaríamos diante da primeira exceção. Em vez de homens gastos, antropopitecos. O fim seria o princípio. Dum Einstein, dum Unamuno, dum Gide, dum Pavlov, sairiam suas excelências Orangotango pai, Orangotango filho, Orangotango espírito santo.

Miguel Torga – Diário II – Editora Coimbra


Muito, pouco, ou muito pouco

O que amar o dinheiro nunca se fartará de dinheiro; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isso é vaidade.

Eclesiastes 5:10

Domingo com o Quatro de Ouros. Que belo conselho vem nos dar essa carta. É o Avarento, e ele espalha rodinhas. O avarento tem um cheiro característico, um cheiro de miséria e de ranço. Que é justamente o que ele rechaça. O Avarento teme a miséria. Teme a falta, teme o vazio. E vive nele. Não é tão difícil de perceber. Avareza, um dos pecados capitais, é sobre ela que vem falar esse arcano miserento.

Na carta clássica, com desenho de Pamela Colman Smith, vemos uma pessoa agarrada a uma moeda, alguém que parece apegado a uma moeda de ouro. Esse apego é importante na carta, mas não está sozinho. O que vemos aqui não é somente apego a algo. É um apego avarento, um apego mesquinho. É dessa faceta do Quatro de Ouros que queremos extrair uma lição hoje. O Livro do Tarô fala, como já dissemos várias vezes, das coisas da vida, das coisas cotidianas e também das extraordinárias. Mas em geral com um senso próprio, que não é religioso, nem psicanalítico, nem filosófico, é um senso mundano, responde a questões imediatas, que estão nos atingindo no momento. É com esse espírito que temos que pensar hoje na avareza e mesquinhez do Quatro de Moedinhas. Pensar em nossa própria avareza e mesquinhez.

Um dia desses eu vi o seguinte segredo no site post secret: alguém comprou um cartão de feliz aniversário para a avó da namorada e a tal avó morreu uns dias antes de fazer anos, e portanto o cartão não foi enviado. A pessoa escreve que é para a gente não esperar e mandar sempre os cartões antes. Esse arcano é sobre isso, sobre algo tão simples. E que pode ser tão complicado.

É sobre o que guardamos para nós, com esse medo desesperado da perda, da falta e do vazio. Com qual sentimento você anda sendo assim tão mesquinho, tão avarento? O que você acumula tanto, mas tanto que sempre falta na sua vida? Avareza é um dos sete pecados capitais. E o que temos nós com isso, que não somos cristãos? Pecado é como chamou a cristandade a essa ética. Mas ela opera desde… Caim? (risos)Ensina o dito popular:

Do faminto avarento o mundo ri, pois nada do que junta é para si

Avareza é uma ética sim, e uma ética que, segundo alguns pensadores, norteia todo capitalismo, e portanto norteia e dirige nossa vida. Vivemos sob o signo da avareza, e avareza é um afeto capitalista. Não vamos nos alongar nisso, mas a lógica da falta, da acumulação e do lucro estão imbricadas com a avareza e são partes moventes do sistema que nos envolve e governa a todos. Mas aqui não é isso que nos importa.

Na nossa semana, é outro aspecto da avareza que vai nos assombrar. É o aspecto emocional. Se ao avarento falta amor, o que falta para nós, que estamos agarrando sabe-se lá o que? O que você não quer soltar, o que você regula, o que você nega, qual amor você não dá para o seu semelhante? Onde você precisa colocar muito mais generosidade? Todos nós somos avaros com alguma coisa, e o Quatro de Moedas apareceu para nos ajudar com esse apego mesquinho. Sejamos generosos. Com nosso afeto, com nosso tempo, com nossas palavras, nossas posses.

O mundo vai acabar, nem que seja no espaço de sua vida. E essa vida é tão curta para viver nessa lógica da falta, do apego, da mesquinharia. É isso, preste atenção nestes dias quando a avareza aparecer. E de preferência, jogue ela por algum ralo. A generosidade alonga e melhora a vida.

Boa semana queridos Patinhas.

Quatro de Ouro

O quatro de ouro é uma carta do tarô que está associada ao tema da avareza. Esta carta representa a energia de segurar, acumular e proteger recursos materiais, como dinheiro, bens materiais e até mesmo conhecimento. Quando esta carta aparece em uma leitura de tarô, ela pode indicar uma mentalidade de avareza, ganância ou apego excessivo aos bens materiais. A avareza é um tema que tem sido explorado ao longo da história da humanidade, sendo frequentemente retratada como uma característica negativa. Na literatura, na religião e na filosofia, a avareza é frequentemente associada a comportamentos egoístas, falta de generosidade e apego excessivo aos bens materiais. A carta do tarô quatro de ouro reflete essa ideia, mostrando uma figura segurando firmemente quatro moedas, com uma expressão de apego e proteção. Essa carta pode servir como um lembrete para avaliar nossas atitudes em relação aos recursos materiais. Pode nos alertar para os perigos de nos tornarmos excessivamente apegados. Além disso, o quatro de ouro também pode nos desafiar a examinar nossas motivações por trás do desejo de acumular riquezas. Será que estamos buscando segurança e estabilidade, ou estamos agindo por medo da escassez? Por outro lado, o quatro de ouro também pode nos alertar para os perigos de ser excessivamente generoso ou descuidado com nossos recursos. Ele pode nos lembrar da importância de cuidar bem do que temos e de não nos deixarmos levar pela impulsividade ou pela pressão externa para gastar além de nossos meios.

Avareza

Diz o texto sagrado que o Espírito levou Jesus ao deserto para ser testado pelo Demônio. Essa é a missão dos Demônios: são ministros de Deus encarregados de testar os materiais de que a alma é feita.
A tentação, que é a ferramenta dos demônios para o cumprimento de sua missão, só acontece no lugar onde mora o desejo. O santo que resiste à tentação está confessando: “Em mim mora esse desejo, que me tenta”. Ninguém é tentado a comer tijolos. Porque ninguém deseja comer tijolos. É preciso que haja o desejo para que a tentação aconteça.
No deserto, o Demônio começou seu teste pelo desejo mais inocente, mais natural. Jesus estava com fome, depois de jejuar por 40 dias. Queria comer. Com certeza estava tendo visões de pães. O Demônio sugere:
_ “Um pequeno milagre vai resolver tudo. Você tem poder. É só falar e as pedras se transformarão em pães.”
Que Deus bom esse, à nossa disposição para atender aos nossos desejos. Mas o Deus de Jesus não era assim. Ele não pode ser invocado para nos livrar dos apertos.
_ “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus …”, Jesus respondeu.
O Demônio percebeu que aquele não era o lugar. Mudou-se para o lugar onde moram desejos mais sutis. Os piores pecados não são os da carne; são os do espírito.
_ “Imagine-se na torre do templo. Lá embaixo a multidão gritando: ‘Pula! Pula!’. Aí você pula. Mas então o inesperado acontece: os anjos vêm e o carregam pelos ares! Será o triunfo, a consagração! Todos acreditarão em você e o seguirão!” Jesus responde que não se deve testar Deus para a realização dos nossos desejos.
Aí o Demônio lança mão do mais profundo desejo que existe na alma humana: o poder! Leva Jesus a um alto monte e lhe mostra todos os reinos do mundo e suas riquezas e lhe diz:
_ “Tudo isso lhe darei se prostrado me adorares!”
Quem tem dinheiro tem todas as coisas. O dinheiro é o deus do mundo. O Vinícius inicia o seu poema “O Operário em Construção” citando esse texto do evangelho. O operário, no alto do monte, tentado pelas riquezas! Porque o fascínio pelo dinheiro não mora apenas no coração dos ricos. Mora também no coração dos pobres.
Esqueça as imagens corriqueiras do avarento como aquele que guarda e junta dinheiro. Esse avarento é um coitado. Faz mal a pouca gente. Ele é o maior prejudicado. De sua companhia todos fogem. Ele é ridículo. Avareza não é isso. É uma qualidade espiritual. Avareza é uma doença dos olhos. Bernardo soares disse que não vemos o que vemos, e sim o que somos. O avarento não vê as coisas; eles vê o que elas valem como dinheiro – a casa, o carro, o filho. E não pense que isso é coisa só de rico… Os pobres avarentos também veem as pessoas em função do dinheiro que dela se pode extrair.
Todos os seus sentidos estéticos e éticos foram destruídos. Beleza, ternura, amor, honestidade, justiça – essas coisas não entram na sua contabilidade.
Por que o avarento se entrega ao amor ao dinheiro? Porque ele sabe que o dinheiro é um deus que tem poderes para operar as mais fantásticas transformações. Marx era bom teólogo; ele sabia que dinheiro é um deus dinheiro que opera os mais extraordinários milagres. Vejam os comentários de Goethe e Shakespeare que ele transcreveu em seus Manuscritos econômicos-filosóficos de 1844.
“Eu sou feio, mas posso comprar a mulher mais bonita para mim mesmo. Consequentemente eu não sou feio, porque o efeito da feiura, o seu poder para repelir, é anulado pelo dinheiro. Como individuo sou um aleijado, mas o dinheiro me dá vinte e quatro pernas. Portanto eu não sou aleijado. Eu sou um homem detestável, sem honra, sem escrúpulos e estúpido, mas o dinheiro é objeto de admiração universal e, portanto eu, que tenho dinheiro, sou admirado. Sou curto de inteligência, mas desde que o dinheiro é o espírito de todas as coisas, como poderia aquele que o possui não ser inteligente? Eu, que pelo poder do dinheiro posso possuir tudo aquilo que o coração humano deseja, não serei também possuidor de todas as virtudes humanas.”
[..]
Quem é movido pela avareza não tem olhos nem coração para sentir o sofrimento dos outros, porque estes lhe são apenas um valor econômico. A avareza tira a capacidade de compaixão. E, com isso, nossa condição de seres humanos.

Atribuído a Rubem Alves, mas não encontrei a origem.

Olhai os Lírios do Campo

Avareza também rende boa arte.

Livro

A Pérola – John Steinbeck. Deve ser um dos livros mais lembrados quando se pensa em avareza. Uma fábula linda sobre as consequências da ganaância e da avareza. Livro curto, marcante, como costumam ser os livros do Steimbeck. Me impactou demais essa história aparentemente simples. Aliás, é uma história simples, e ao mesmo tempo não é. Dá pra ler de uma vez. Steinbeck é mestre demais.


Um casal de pescadores descobre uma pérola perfeita. valiosa e brilhante. que desperta neles e nas pessoas que vivem em um povoado no litoral do México sentimentos e desejos hostis. Há metáforas bíblicas nessa história emocionante de Steinbeck. que flui como uma parábola ao estilo de “quem tudo quer nada tem”. Uma narrativa que enfoca os anseios comuns de imigrantes e trabalhadores: a esperança por uma vida melhor. O herói descrito com maestria pelo norte-americano John Steinbeck é o índio Kino. homem comum. e sua jornada é a clássica jornada do herói em busca de sorte. Há nesta aventura bem contada crescente emoção. uma das melhores escritas até hoje.


Filme


Sangue Negro – Paul Thomas Anderson – 2007. Um dos melhores filmes que eu já vi. Virou referência de pensamento, é espetacular. História atuação, filme, é tudo sensacional. E fala diretamente ao nosso tema da semana. As consequencia s da avareza. Mas não tem economia de beleza nem de arte, é um filmaço.


 Sangue Negro (There Will Be Blood)é um filme norte-americano, do gênero drama, dirigido e escrito por Paul Thomas Anderson, baseado no romance Oil!, de Upton Sinclair. A trilha sonora do filme foi composta pelo músico Jonny Greenwood, da banda Radiohead, e a fotografia é de Robert Elswit, que trabalhou com Paul Thomas Anderson em Magnolia, Boogie Nights e Punch-Drunk Love. No início do século XX, na fronteira da Califórnia, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um mineiro derrotado que ocupa seu tempo cuidando do filho. Um dia ele fica sabendo que no vilarejo de Little Boston o petróleo jorra do solo, e decide partir para lá. Daniel e seu filho se arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza mas também muitos conflitos.


Mais um filme 

Feios, sujos e Malvados – Ettore Scola – 1976. Acabei de ver esse filme, para esse post. Muito interessante, tem tudo a ver com a carta da semana. Em 2024 é um filme desconcertante e que jamais seria feito. Mas é provocação pura, e mesmo sem apreciar tudo, mesmo com o sobressalto e alguma discordância, é um filme de um tempo em que não era necessário nem mimar nem tratar o espectador como idiota. Bons tempos. Assistam


Giacinto (Nino Manfredi) mora com a esposa, os dez filhos e vários parentes num barraco de uma favela de Roma. Todos querem roubar o dinheiro que ele ganhou do seguro, por ter perdido um olho quando trabalhava. A situação fica ainda pior quando ele decide levar uma amante para dentro de casa. Vencedor do Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.


Série

Succession -Andrij Parekh – Jesse Armstrong – 2018-2023. Já indiquei essa série. Mas não dá pra falar de avareza e não pensar nela. O bom dela é que você tem um cardápio de bilionários escrotos pra odiar, a gente torce para o que quer que esteja contra eles. Avareza em estado bruto. E vou repetir aqui o que escrevi no outro post: É impossivel ser bilionário e ter uma gota de generosidade nas veias, ainda mais quando é tão claro o dano que eles estão causando ao mundo, como o planeta está sendo destruído por causa de bilionários. Que existam bilionários é indecente. E se você discorda procure saber a diferença de dinheiro que tem um milionário e um bilionário. E Succession mostra esse bando de parasitas feios, vazios e descolados da realidade fazendo coisas ridículas que os bilionários devem fazer. Enfim, uma classe pavorosa, nociva, que realmente não deveria existir. Mas a série é muito boa 🙂


Uma anti indicação

Uma série que eu detesto. Vi uns 2 ou 3 episódios só porque fui basicamente obrigada pela Laís :o) e sinceramente cruz credo. Não quero mais ver nenhum episódio pois é nojento. Mas é justamente sobre avareza, é seu tema principal. Muquiranas – Fábio Ock – 2024. Tem a estrangeira e a nacional, rs. Fique longe das duas :0)


A série acompanha 14 brasileiros que levam suas práticas de economia ao extremo, muitas vezes afetando suas vidas pessoais e relações. Produzida nacionalmente, a série revela os hábitos nada convencionais e as motivações destas pessoas, que desafiam a criatividade para maximizar suas economias. Entre as estratégias inusitadas estão a reutilização de água do banho para lavar roupas, o escambo de serviços por benefícios estéticos, a criação de ecossistemas que reaproveitam água da chuva, a fabricação própria de aparelhos de musculação e o aproveitamento de roupas de parentes falecidos. Ao documentar essas práticas extremas, Muquiranas Brasil expõe os costumes, rotinas e desafios enfrentados por essas pessoas, proporcionando um olhar único sobre a economia obsessiva. Inspirada no formato original lançado em 2012 pelo canal TLC, a série destaca a vida daqueles que vivem na contramão do desperdício comum na sociedade moderna.

Existe gente que, mesmo sem precisar, transforma a economia em obsessão, submetendo família e amigos a seus hábitos bizarros, como procurar comida e mobília no lixo, dividir pratos nos restaurantes e lavar roupa na água do banho. Serão eles visionários, engajados em minimizar o desperdício desnecessário ou serão simplesmente… sovinas?


Revista

Coordenado pela filósofa Marcia Tiburi, o dossiê Filosofia da avareza investiga os sentidos da avareza em campos diversos do saber, da religião à psicanálise, da filosofia à economia. Se na tradição cristã o egoísmo afasta a humanidade da virtude da comunhão, no pensamento social clássico o ter em excesso não obedece à simples paixão, mas, sim, ao cálculo e à lógica da acumulação de capital. O avarento ama o dinheiro – não por seu mero valor de transação, mas como fim em si mesmo. Ora tomado como objeto de desejo e fetiche, ora compreendido como fundamento do capitalismo, o acúmulo da riqueza impõe questões éticas, sociológicas e políticas.


Link

Cultura Inútil: Sobre a avareza e os avarentos


♫ Playlist

Pão Duro – Luiz Gonzaga
Lucro – Baiana System
Pra que dinheiro – Martinho da Vila
Money – Pink Floyd
Asi soy yo – Cuarteto de Nos
Money – Pink Floyd
Boca Aberta – Pitty
Dinheiro – Rita Lee
Não quero Dinheiro – Tim Maia
Material Girl – Madonna
Me dá um dinheiro aí – Moacir Franco
You Never Give Me Your Money – Beatles
O vendedor de bananas – Jorge Benjor
Pecado Capital – Paulinho da Viola
Esmola – Skank
Pobre Menina – Leno & Lílian
Eat the Rich – Aerosmith


“A quem não basta o pouco, nada basta”.

Epicuro

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Primavera e muita gente estranha.

20 de outubro é o 293.º dia do ano no calendário gregoriano (294.º em anos bissextos). Faltam 72 dias para acabar o ano.

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/10/20/eu-durmo-no-chao/feed/ 2
https://almanaque.nalu.in/2024/10/06/canta-forte-canta-alto/ https://almanaque.nalu.in/2024/10/06/canta-forte-canta-alto/#comments Sun, 06 Oct 2024 03:01:50 +0000 https://almanalua.blog/?p=912 canta forte, canta alto

Belo Horizonte, 06 de outubro de 2024

🌤18– 32o


Um meme para hoje: Neste domingo não esqueça do seu título, da sua origem e da sua classe social. E se você é preto, pobre, lgbt ou mulher, nessas eleições não esqueça: a mão que faz arminha mira na nossa cabeça. @PoetaSeuZe


Receita de espantar a tristeza

faça uma careta
e mande a tristeza
pra longe pro outro lado
do mar ou da lua
vá para o meio da rua
e plante bananeira
faça alguma besteira
depois estique os braços
apanhe a primeira estrela
e procure o melhor amigo
para um longo e apertado abraço

❤
Roseana Murray



Em 06 de outubro de 1974, a maior advogada de presos políticos do nordeste anotou o seguinte em seu diário:

06.10.1974

Marcos Burle vai ter que voltar para São Paulo a fim de ser ouvido pelo Auditor, no processo de lá. Dona Carmita já me telefonou, e já começou a chorar…, e a rezar. Como mãe, Carmita se dá inteiramente aos filhos, amor compreensão, saúde, a própria vida. Surda, com bursite, cheia de angústia, vem diariamente conversar comigo. Eu dou-lhe coragem e esperança, e grito com ela, para reagir; ela se vai controlada e eu fico bancando a forte, mas recorro aos bálsamos…

Mércia Albuquerque Ferreira – Diários 1973-1974 – Ed. Potiguariana


A Felicidade do Pobre

Pois a sua ira só dura um instante, mas o seu favor dura a vida toda; o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria.

Salmos 30:5

“Toda vida real dói, mas também satisfaz. A felicidade vem quando já vivemos e damos uma trégua para a pura entrega. A felicidade, no sentido vulgar, é apenas uma experiência de férias. A felicidade duradoura está em sermos usados pela vida, machucados pela vida, impulsionados pela vida e instigados pela vida, reabastecidos e radiantes com a vida, lutando pela vida. Essa é a verdadeira felicidade. No curso de toda uma vida, grande parte é dor”.

D. H. Lawrence

Num domingo de eleição no Brasil, quem aparece é o Cinco de Copas. A carta do desapontamento.  ¯\_(ツ)_/¯  Um dos temas do 5 de copas é a Tristeza. Esse assunto que em geral faz com que todos fujamos. Fugimos que nem loucos pra Samarra quando percebemos a mais leve brisa da sua presença. Ainda mais vivendo em uma sociedade e em um tempo que rejeita a tristeza a todo custo. Talvez não seja o nosso tempo. Talvez seja a nossa constituição de humanos, que não suporta por si mesma, a tristeza. Algo em nós é sempre impelido a procurar seu contrário. Os filósofos mais antigos, ao se colocarem a questão da tristeza já diziam que o homem busca primordialmente a felicidade, todo homem. E que um dos objetivos da própria filosofia seria ajudar a alcançar a felicidade. Tendemos a não suportar a negatividade e a tristeza é vista como o polo negativo que devemos enterrar e negar. Toda vez que surge uma carta tida como triste, a leitura deste blog despenca, é bem interessante. A tristeza não é produtiva, no império da produtividade.

Em tempos em que a felicidade é uma imposição e um status, a tristeza é tabu, é um defeito que temos que evitar. Em geral a proximidade com alguém triste é um grande incômodo. A tristeza é quase contagiosa, é uma doença.  Nossa necessidade de aliviar a tristeza do outro mostra que não sabemos muito bem o que fazer diante desse estado da alma. Esse sentimento é visto como um erro primordial. Tristeza recende a fraqueza.

O que vou falar e o que estou falando, é óbvio. Perdoem a banalidade do tema, tarô também é o deus perto das pequenas coisas. Aquelas que sabemos, mas que de vez em quando temos que recordar. Não é possível atravessar nenhuma vida sem altas doses de tristeza, o mundo pode ser um lugar muito triste, as perdas, as faltas são condições da existência.

Assim, o 5 de copas vem neste domingo com um lembrete: não existe felicidade que não saiba a tristeza. Porque temos a capacidade de ficar tristes é que conhecemos a alegria. Uma vida sem tristeza nenhuma nem seria… Imagine um deserto monótono, árido, infértil. É preciso saber a tristeza, saber sua cor e seu gosto, para emergir na felicidade. Na alegria de verdade, aquela da chuva depois de tanta seca, do sol depois de tanta chuva, do alívio depois da dor…

O preceito do cinco de copas é simples, olhar, acolher e agasalhar a tristeza, e mandá-la embora prontamente, mas não prematuramente. A tristeza não precisa criar raízes, a tristeza enraizada sem motivo é melancolia, não serve de farol.

Mas também não há como existir sem conhecer o lamento. A lição dessa também indesejada é que se não existe vida sem tristeza, também não existe vida na tristeza permanente. Nessa semana pode ser que fiquemos tristes por algum motivo. Ou sem motivo. Antes de se desesperar e correr para qualquer máxima vazia, quem sabe possamos dar uma chance a esse rasgo de tristeza e ficarmos felizes (risos) porque tudo passa e logo ali alguma felicidade precisa nos esperar, ainda que no fim do mundo. E se for só a tristeza pura e simples, que seja, também é a letra da música que toca. 

E o Cinco de Copas nos lembra disso, de que felicidade obrigatória não é nada. Que não pode haver o imperativo de felicidade, que felicidade são só horinhas de descuido mesmo… E que a tristeza é sine qua de qualquer vida.

Abrir espaço para alguma tristeza, porque ela também pavimenta a felicidade das horas, dos dias e da vida. Nem tudo é sobre felicidade, uma vida que só objetiva a felicidade pode vir a ser uma vida bastante pobre.

Feliz semana a todos nós, votem com consciência.

Cinco de Copas

O cinco de copas é uma carta de tarô que está associada à tristeza e à decepção. Quando esta carta aparece em uma leitura, ela sugere que a pessoa está passando por um momento de desilusão e desapontamento. Pode indicar que algo não saiu como esperado ou que houve uma perda significativa na vida do consulente. A imagem representada no cinco de copas geralmente mostra uma figura solitária, curvada e desanimada, olhando para três copos derramados no chão, enquanto dois permanecem em pé. Esta cena simboliza a sensação de perda e desesperança que a pessoa está experimentando. Ela pode estar tão concentrada no que foi perdido que não consegue ver o que ainda tem ao seu redor. Quando esta carta aparece em uma leitura, é importante lembrar que a tristeza é uma emoção natural e faz parte da experiência humana. Todos passamos por momentos difíceis e é importante permitir-se sentir e processar essas emoções. No entanto, o cinco de copas também nos lembra que é fundamental não ficar preso ao passado e às decepções. É preciso encontrar maneiras de seguir em frente e buscar novas oportunidades. Vamos aprender a aceitar as perdas e a encontrar maneiras de crescer com elas. Em vez de se concentrar apenas no que foi perdido, olhar para o futuro e buscar novas possibilidades. Além disso, o cinco de copas também pode indicar a necessidade de buscar apoio emocional. Quando estamos passando por momentos difíceis, é importante ter pessoas ao nosso redor que possam nos oferecer suporte e compreensão. A tristeza pode ser uma emoção avassaladora, mas compartilhar nossos sentimentos com outras pessoas pode nos ajudar a aliviar o fardo emocional. Por fim, o cinco de copas nos lembra que a tristeza é apenas uma parte da vida e que ela eventualmente passará.

Uma carta sobre a tristeza

Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornaram estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Eis por que a tristeza também passa: a novidade em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, penetrou no seu mais íntimo recanto. Nem está mais lá – já passou para o sangue. Não sabemos o que houve. Facilmente nos poderiam fazer crer que nada aconteceu; no entanto, ficamos transformados, como se transforma uma casa em que entra um hóspede. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que o nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbá -vel entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando, num dia ulterior, vier a “acontecer” – isto é, quando sair de nós para se chegar a outros –, senti-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim. É preciso – e a nossa evolução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido – que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito. Já se modificaram muitas noções relativas ao movimento; há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles. Muitas pessoas não percebem o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam, nem o transformaram em si mesmas. Afigurou-se-lhes tão estranho que, em seu confuso espanto, julgavam-no saído delas justamente naquele momento, e juravam nunca antes ter encontrado em si algo parecido. Como os homens durante muito tempo se iludiram acerca do movimento do sol, assim se enganam ainda em relação ao movimento do que está para vir. O futuro está firme, caro sr. Kappus, nós é que nos movimentamos no espaço infinito.

Como, pois, não seria difícil a nossa sorte?

Rainer Maria Rilke – Cartas a Um Jovem Poeta – Ed. Globo. Tradução de  Paulo Rónai

Mas a Vida Vai Melhorar

Em algum momento, tudo melhora.

Livros

A Elegância do Ouriço – Muriel Barbery. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. Um dos meus livros preferidos da vida. É um livro cheio de uma tristeza fina. Uma melancolia afiada e personagens que sabem muito bem serem tristes. E ainda assim, com tanta tristeza é um livro muito bonito. É um livro que me confortou e me colocou de volta em um lugar que era meu e do qual eu tinha saído em busca de ser algo que eu nunca fui. E tem uma história bonita e envolvente.


Um prédio elegante no centro de Paris; uma desconfiada zeladora de meia-idade, fã de Tolstoi e do Oriente; uma garota cáustica, às turras com a família; um senhor japonês sorridente e misterioso. Com esses ingredientes díspares, Muriel Barbery fez do romance A elegância do ouriço a boa surpresa literária de 2006 na França, onde vendeu mais de 850 mil exemplares.


Receitas Para Mulheres Tristes – Héctor Abade. Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni. Esse livro é uma delícia, dá água na boca, como todo  bom livro de receitas deve dar. Embora as receitinhas aqui não sejam de cozinhar. E nem sejam previsíveis, e nem todas sejam inteligíveis. Mas são muito boas de ler, Héctor Abade é um escritor latinoamericano muito bom de conhecer e esse livro é ótimo para um primeiro encontro com esse autor, leitura rápida e gostosíssima.


Em 72 textos breves e inclassificáveis, híbridos de receita de cozinha e simpatia, conselho sentimental e aforismo filosófico, Abad nos oferece um saboroso pot-pourri, com fortes poderes de consolação.


Filme

Melancholia – Lars Von Trier – 2011. O Lars Von Trier mais bonito. Esse filme é sobre a tristeza de não estar e sobre a alegria de se encontrar no fim de tudo. Meu filme triste do coração. Que não é somente triste, também é sobre a tristeza, sobre depressão e sobre ser triste em meio a uma pá de coisas tão supostamente boas. Eu acho que é uma obra-prima, todo mundo devia se dar o presente de assistir a esse filme.


Duas irmãs, afastadas pelo tempo, têm reações completamente distintas ao saber que o mundo pode estar chegando ao fim com o planeta Melancolia se movimentando em direção à Terra. Uma aceita calmamente a situação enquanto a outra se desespera.


Série

Epitáfios – Marcelo Slavich, Alberto Lecchi, Jorge Nisco. 2004-2009. Essa série é um suspense. É uma série antiga, argentina, mas é das melhores que eu já vi. Toda tristeza do mundo está nela. Por ser um suspense dos melhores, prende a atenção e envolve do começo ao fim. É bem mais interessante que os duzentos mil pastiches copiados dela que vieram depois. Vale demais todo o tempo que for gasto assistindo.


A história acompanha um policial aposentado enquanto ele tenta capturar um serial killer que anuncia sua próxima vítima por meio de um epitáfio. Esta foi a primeira série da HBO produzida na América Latina e filmada na Argentina


♫ Playlist

Água de beber – Tom Jobim
Bom dia Tristeza – Maysa
Tristeza – Beth Carvalho, Martinho Da Vila
Canta Canta minha gente – Martinho da Vila
Feeling Good – Nina Simone
Tristeza pé no chão – Clara Nunes
Na Sua Estante – Pitty
O que é o que é – Gonzaguinha
A Felicidade – Tom Jobim
Azul da cor do mar – Tim Maia
Tristeza – Jair rodrigues
O mundo é um moinho – Cartola
A Media Luz – Julio Iglesias
Everybody hurts – REM
Jura secreta – Fagner
Ária na corda sol – Bach
Nuvem de Lágrimas – Chitãozinho e Xororó
Samba-Enredo da Viradouro 2022
Vento no Litoral – Legião Urbana
Depois – Marisa Monte
È de lágrima – Los hermanos


“E se prazer e desprazer estivessem ligados por um vínculo tal que aquele que queira ter o máximo possível de um deva também ter o máximo possível do outro – que aquele que queira aprender a ‘alegria que eleva aos céus’ deva também estar pronto para uma ‘tristeza mortal’?”
Nietzsche

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Primavera e muita gente estranha.

5 de outubro é o 278.º dia do ano no calendário gregoriano (279.º em anos bissextos). Faltam 87 dias para acabar o ano.

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/10/06/canta-forte-canta-alto/feed/ 2
https://almanaque.nalu.in/2024/09/15/parece-bolero/ https://almanaque.nalu.in/2024/09/15/parece-bolero/#comments Sun, 15 Sep 2024 03:05:05 +0000 https://almanalua.blog/?p=908 parece bolero

Belo Horizonte, 15 de Setembro de 2024
Previsão do tempo: estão nos matando

🥵


Em 15 de setembro de 1928 Alexander Fleming descobre a penicilina enquanto estudava a bactéria staphylococcus, e graças a ele ainda estamos aqui. Em 1935 as Leis de Nuremberg privam os judeus alemães da cidadania. A Alemanha nazista adota uma nova bandeira nacional com a suástica. Em 1995 estreou o Filme Seven – Os Sete Crimes Capitais. Em 15 de setembro nasceram: em 1254 Marco Polo, em 1613 François de La Rochefoucauld, em 1765 Bocage, em 1890 Agatha Christie, em 1894 Jean Renoir, em 1932 Antônio Abujamra, em 1933 Rubem Alves, em 1938 Lya Luft, em  1945 Carmen Maura, em 1946 Oliver Stone. Que dia que nos proporcionou artistas heim? Em 15 de setembro deixaram esse mundo, em 2016 Domingos Montagner, em 2017 Harry Dean Stanton. Em 15 de setembro de 2016 minha mãe ainda vivia. Não existiu penincilina que pudesse salvá-la.


Nostalgia do Presente

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

❤

Jorge Luis Borges


 


Em 15 de setembro de 1969 Ana Cristina César escreveu essa carta para seu amado Luiz Augusto:

Ah a tristeza desse céu ah, Deus, por que você botou essa tristeza tão acinzentada e calma nesse céu, você não precisava encher o espaço entre esse céu e essa terra com essa névoa entristecida. Ah Deus nem pôr entre o Luiz e eu essa lonjura que não dá nem para a gente entender as coisas direito Ah vê se você ajeita esse céu essa terra essa tristeza essa lonjura ah mém

[…]É à noite que acontecem (entre uma cuurva do 2° andar do ônibus vermelho e outra, e pulos) minhas maiores saudades. Ontem era domingo e eu no meu quarto te amando te lembrando (Luiz!) Eu talvez te achasse no meu sono. Deitei com a preguiça de sempre, havia um inadvertido frio debaixo dos cobertores; te achei em sonhos precipitados precipícios sonhados (te vi) (antes mesmo de cair)

[…] e no Inadvertido frio (eu atrás do teu calor) não sou mais que um suspiro perdido numa noite de setembro; e nenhuma noite de setembro me engole melhor do que esta que tem sotaque de antes do Inverno; e essas paredes não têm gosto; e se junta à falta tua a falta de um sinal mais vivo que me antecipe visões voos teus e me traga uma mínima verdade de você, que eu amo; e vou me despersonalizando (sem ti aos poucos)
“à procura da exata palavra que traga a Impressão exata dos momentos mais convulsos, no espelho em busca do rosto depurado em verdade. Na boca um hálito oco, no olho uma secura. Não há espaço para se fechar em desespero. Nem se pode chorar os mais ausentes. Na própria linha do quarto uma linguagem de esquecimento. Adormecem as palpitações de amor e a linguagem de amor adormece. De insônia em insônia, a parede fria e os estalidos das coisas não humanas.”

Ana Cristina César – amor mais que maiúsculo – cartas a luiz augusto – Cia das Letras


Todos os nossos ontens

“Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão
Isaías 65:17

 

Eu preciso dizer algo  antes de passar ao arcano dos dias. É muito complicado falar de coisas aparentemente tão triviais como tarô, literatura, cinema, diários, etc., quando o  mundo está desmoronando. Eu me sinto às vezes e quase sempre (rs) ridícula, pequena. Fico pensando que importa isso? Que importa isso para mim? Mas não posso fazer outra coisa, quando a minha conclusão é que, depois de fazermos o possível para que o mundo ainda tenha uma sobrevida, é no pequeno que temos que nos agarrar. É o pequeno mundo dos dias que passam que importa, é dele que é feita a vida. Por isso ainda estou escrevendo, mesmo a muito maior custo do que antes, mas para organizar minha cabeça também. Esse ano o fim do mundo parece muito mais acelerado do que em qualquer ano para trás. Mas enquanto isso, podemos cuidar de nós, podemos olhar para a beleza, é isso que ainda tento aqui. Então aí vai, e prossigam na cultura dos seus dias (frase de Juliana Gervason).

O arcano destes dias é o Seis de Copas. Eu amo essa carta, só de olhar para ela eu sinto nostalgia. E ela é nostalgia pura. Não é exatamente saudade, nem melancolia. Saudade é vontade daquilo que já se sabe que gosta. É nostalgia, principalmente da infância, pois em geral o estado idílico que fantasiamos é o da infância. E dos lugares onde éramos felizes, ainda que só na imaginação, na idealização. Mas não só a infância é um lugar nostálgico. A nostalgia é a daquele lugar onde havia muita potência, e em geral é na juventude que está todo potencial. Se apegar a esse lugar de potência é como o conto em que o rei quer comer uma sopa saboreada quando era criança e passa a vida procurando quem consiga preparar aquela sopa com gosto de infância e não consegue. Porque a infância não está lá, a potência da vida quase só pode ser vista em retrocesso, jamais comeremos novamente a sopa da infância e da juventude. E lá, quando comemos, não sabemos. O apogeu da vida quase nunca é percebido na hora. Na minha idade é muito comum ter nostalgia. Do que se viveu e do que se poderia ter vivido, e em geral quem está atravessando ou já atravessou a meia idade tem sua dose de nostalgia. Drummond diz: Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante. Isso não quer dizer que pessoas jovens, ou até mesmo crianças não sintam nostalgia. Vontade de voltar ao Éden todos temos. E o Seis de Copas é o retrato desse tempo intocado pela vida, desse tempo onde tudo era perfeito e as águas abundantes.

A ensaísta Meghan Daum tem uma bonita passagem sobre isso, que diz o seguinte:

Agora que quase nunca sou a pessoa mais jovem em qualquer sala, percebo que o que mais sinto falta daquela época é a mesma coisa que me deixava tão louca quando eu vivia nela. O que sinto falta é da sensação de que nada começou ainda, que o futuro se eleva sobre o passado, que o presente é apenas uma fase de planejamento para a arquitetura brilhante que comporá o horizonte do resto da minha vida. Mas o que esqueço é a solidão de tudo isso. Se tudo está à frente, nada está atrás. Você não tem lastro. Você também não tem ventos favoráveis. Você quase nunca sabe o que fazer, porque você quase não fez nada.

E é essa a paisagem desse arcano. A tomada de consciência que existe esse lugar idílico atrás de nós, e a depender da idade que se tem, esse lugar pode estar à frente. Mas este lá existiu e existe, e de alguma maneira nos nutre, nos dá forças para continuar inteiros. Todos nós vivemos coisas muito bonitas na vida e todos ocasionalmente sentimos falta de voltar a esse momento. O seis de copas é a carta que nos mostra que podemos olhar com carinho para o nosso passado e fazer dele uma fonte de alegria e significado. A mesma Meghan continua:

Qualquer vestígio de precocidade que eu já tive está há muito esquecido. Não sou e nunca mais serei uma jovem escritora, uma jovem dona de casa, uma jovem professora. Nunca fui uma jovem esposa. A única coisa que eu poderia fazer agora pela qual minha juventude seria uma característica verdadeiramente notável seria morrer. Se eu morresse agora, morreria jovem. Todo o resto, estou fazendo na meia-idade.

E sim, é verdade, mas ninguém tem o passado que tivemos. Nosso passado é um bloco e dele podemos extrair muita força. É claro que para alguns de nós o passado tem dor, mas tem beleza também e é dela que podemos, se quisermos e precisarmos, extrair potência e vontade de continuar. Porque nunca existiu outra idade, só existe a idade que a gente tem neste momento. Nesta semana, voltemos à aurora da nossa vida, à nossa infância querida e vamos encher nossa jarra da água da vida. Pois estamos precisamos desesperadamente de água, de verde, de chuva, de rios, (e de governantes muito melhores),tudo isso que compõe o paraíso, nossos infinitos particulares.

Boa semana, e que saudades da professorinha.

Seis de Copas

Esta carta está associada à nostalgia, memórias do passado e conexões emocionais. O seis de copas é representado por duas crianças que estão brincando juntas. Elas estão cercadas por flores e copas, símbolos de amor, emoções e conexões emocionais. A carta evoca uma sensação de inocência e nostalgia. Ela nos lembra das memórias felizes da infância, dos tempos mais simples e das relações que idealizamos. Quando o seis de copas aparece em uma leitura de Tarô, ele pode estar indicando que é hora de olhar para trás e se reconectar com o passado.  A carta também pode sugerir que estamos presos no passado, lutando para seguir em frente ou presos em padrões emocionais antigos. Nostalgia é a emoção associada ao seis de copas. É natural sentir saudade do passado, mas também é importante viver no momento presente. O seis de copas também pode nos lembrar da importância de manter conexões emocionais profundas. Ele nos faz refletir sobre as relações significativas em nossas vidas.

Dois textos para a nossa Velha Infância

Não sei onde se romperam os fios que me ligam a minha infância. Como todo mundo, ou quase, tive um pai e uma mãe, um penico, uma cama de grades, um chocalho, e mais tarde uma bicicleta que, parece, eu jamais montava sem lançar gritos de terror à simples ideia de que fossem querer levantar ou mesmo retirar as duas rodinhas adjacentes que asseguravam minha estabilidade. Como todo mundo, esqueci tudo de meus primeiros anos de existência.

Minha infância faz parte daquelas coisas das quais sei que não sei grande coisa. Ela está atrás de mim, no entanto, é o solo sobre o qual cresci, ela me pertenceu, seja qual for minha tenacidade em afirmar que não me pertence mais. Por muito tempo procurei afastar ou mascarar essas evidências, encerrando-me na condição inofensiva do órfão, do não gerado, do filho de ninguém. Mas a infância não é nostalgia, nem terror, nem paraíso perdido, nem Tosão de Ouro, mas talvez horizonte, ponto de partida, coordenadas a partir das quais os eixos de minha vida poderão encontrar seu sentido. Mesmo contando apenas, para escorar minhas lembranças improváveis, com o apoio de fotos amarelecidas, de testemunhos raros e documentas insignificantes, não tenho outra escolha senão evocar o que por muito tempo insisti em chamar o irrevogável; o que foi, o que se deteve, o que ficou enclausurado: o que foi, sem dúvida, para hoje não ser mais, mas o que foi, também, para que eu seja ainda.

Georges Perec – W ou A Memória da Infância – Cia das Letras


Em grego, retorno se diz nóstos. Álgos significa sofrimento. A nostalgia é, portanto, o sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar. Para essa noção fundamental, a maioria dos europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgie, nostalgia), e também outras palavras com raízes em sua língua nacional: añoranza, dizem os espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua, essas palavras possuem uma conotação semântica diferente. Muitas vezes significam apenas a tristeza provocada pela impossibilidade da volta ao país. Nostalgia do país. Nostalgia da terra natal. Aquilo que em inglês se chama homesickness. Ou em alemão: Heimweh. Em holandês: heimwee. Mas essa é uma redução espacial dessa grande noção. Uma das mais antigas línguas europeias, o islandês, distingue bem dois termos: söknudur: nostalgia no seu sentido geral; e heimfra: nostalgia do país. Os tchecos, além da palavra nostalgia de origem grega, têm para a noção seu próprio substantivo, stesk, e seu próprio verbo; a frase de amor mais comovente em tcheco: styska se mi po tobe: sinto nostalgia de você; não posso suportar a dor da sua ausência. Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, este, da palavra latina ignorare (ignorar). À luz dessa etimologia, a nostalgia surge como o sofrimento da ignorância. Você está longe e não sei o que se passa com você. Meu país está longe, eu não sei o que está acontecendo lá.

Milan Kundera – A Ignorância – Cia das Letras

Iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó

A nostalgia é farta demais em arte, fica muito complicado escolher, eu poderia ficar o resto da vida indicando e falando sobre as obras que tem a nostalgia como tema. Mas… Aí vão algumas coisas com a dor melancólica da escolha :o) . Plenamente ciente que ficou um universo inteiro pra trás.

Hoje não vou colocar os resumos que tiro da internet pois o post já está gigantesco.

Livros

A Ignorância – Milan Kundera. O livro da Nostalgia, com um enredo que gira em torno da noção de nostalgia. E é Kundera, que me fez lembrar na leitura deste livro, porque ele ainda é meu autor favorito, aquele que mais conversa comigo. A Ignorância é um livro curtinho, mas que me faz suspirar. É lindo, melancólico e nostálgico, como quase tudo do Kundera. Amo e recomendo demais, Kundera é um autor bom demais para tempos difíceis, euy sempre sinto que é como se ele ensinasse a viver em tempos sombrios. E sendo meu autor favorito da vida, não tenho como recomendar mais.


Um clássico nacional

Memórias de Marta – Julia Lopes de Almeida. Esse livro é uma lembrança da vida de Marta. Tem nostalgia suficiente, é um livro surpreendentemente bom, mas ele está aqui porque todo brasileiro deveria conhecer Julia Lopes de Almeida, da mesma maneira que conhece José de Alencar e outros homens que formam nosso panteão. Júlia está à altura de todos eles e é incrível que ela tenha sido apagada e esquecida da história da nossa literatura. Isso está mudando devagar, e que bom, não chegaria a mim que não sou uma estudiosa formal de literatura, nem ao público em geral. Mas é isso, experimentem ler Júlia Lopes, é surpreendente, mesmo com alguns problemas do seu tempo.


Foi um péssimo dia – Natalia Borges Polesso. Eu realmente poderia continuar até muito tempo, pois o que não falta é uma imensa lista de livros sobre o tema. Mas vou falar só de mais um, um nacional contemporâneo, LGBTQIAP+ de uma escritora conceituada, e que eu li para essa carta. É um livro curtíssimo, quase um conto grande, parece ser autobiográfico e é bem bonito. Escorrega um pouco no didatismo, mas não compromete o livro. 


HQ

A Casa – Paco Roca. Uma das mais bonitas e melancólicas HQs que eu li. Além de linda visualmente, conta uma história muito, muito tocante, e que desperta uma nostalgia funda na gente. Eu fiquei engasgada várias vezes durante a leitura. Recomendo demais, mas demais mesmo.


Filmes

Cinema Paradiso – Giuseppe Tornatore – 1988. Eu imagino que todo mundo que me lê já viu esse filme, pra mim o mais emocionante filme sobre nostalgia que eu já vi. Não é só sobre nostalgia, é sobre o amor ao cinema também. Se você não viu, eu recomendo esse filme mais do que qualquer outra arte indicada aqui hoje. É lindo, lindo, um dos filmes mais emocionantes da história do cinema. Vejam. 


Meia Noite em Paris – Woody Allen 2011. Mais um filme, porque esse é uma joia da nostalgia também, e além disso é bem didático (risos). Ele nos ensina sobre nostalgia, sobre tentar reviver o que nunca existiu. Acredito que todo mundo por aqui já viu esse filme, mas se não viram, é uma oportunidade na semana do seis de copas.

Eu podia indicar muito mais filmes, Conta Comigo, Era Uma Vez em Tóquio, Adeus Lenin! Vidas Passadas – recentíssimo e lindíssimo, Aftersun (maravilhoso!), 45 anos e tantos outros, mas ficaria aqui por muito tempo. Escolhi os que me fizeram doer de verdade o coração de nostalgia. Mas tem muito muito filme, a nostalgia é sempre um tema muito bom pra se fazer cinema.


Série

Anos Incríveis – Carol Black, Neal Marlens. 1988 – 1993. Ah, essa série, ah meus dias de jovem em que eu assistia tendo que esperar sair algum episódio, esperando pra ver o próximo… Eu era tão jovem, tinha tanto pela frente, quase tanto quanto os personagens jovens dessa série, que é linda em TODOS os episódios, que é uma delícia de ver, de rever, de se cansar sem nunca se fartar de ver. Recomendo demais, vejam, está disponível em algum streaming por aí.


Anos Dourados – Wikipédia, a enciclopédia livre

Essa série é linda, nacional e nostálgica pra caramba.


♫ Playlist

Anos dourados – Tom Jobim e Chico Buarque
House of the rising sun – Animals
Retrato em branco e preto – Tom Jobim
Blackbird – Beatles
Sun Bleached Flies – Ethel Cain
Atrás da porta – Chico Buarque
Meus Tempos De Criança – Ataulfo Alves
Onde anda você – Toquinho e Vinícius
Saudade – Christian & Ralf
Saco de Feijão – Beth Carvalho
Faz parte do meu show – Cazuza
Don’t Smoke in Bed – Nina Simone
Journey Through The Past – Neil Young
Como nossos pais – Elis Regina
Velha Infância – Tribalistas
Memórias – Pitty
Epitáfio – Titãs
Wish You Were Here – Pink Floyd
Chandelier – Sia
Budapest – George Ezra
O Divã – Roberto Carlos
Shallow – (feat. Bradley Cooper) Lady Gaga


a minha infância tem o som do sabiá laranjeira

Casa é aquela região juvenil na qual uma criança é o único habitante real. Pais, irmãos e vizinhos são aparições misteriosas que vêm, vão e fazem coisas estranhas e insondáveis em torno da criança e com ela, o único cidadão emancipado da região.

Maya Angelou

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Estamos sendo sufocados em plena luz do dia.

15 de setembro é o 258.º dia do ano no calendário gregoriano (259.º em anos bissextos). Faltam 107 dias para acabar o ano.

 

 

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/09/15/parece-bolero/feed/ 6
https://almanaque.nalu.in/2024/08/25/se-voce-trouxer-o-seu-lar/ https://almanaque.nalu.in/2024/08/25/se-voce-trouxer-o-seu-lar/#comments Sun, 25 Aug 2024 03:26:41 +0000 https://almanalua.blog/?p=895 e se você trouxer o seu lar

Belo Horizonte 25 de agosto de 2024

🥵16° – 31° 


Em 1660 ocorreu a Revolta da Cachaça, no Rio de Janeiro. Em 1825 o Uruguai se proclamou independente do Império do Brasil. Em 1933 o terremoto de Diexi matou 9000 pessoas na China. Em 2012 a sonda Voyager 1 se tornou o primeiro objeto construído pelo homem a sair do Sistema Solar. Em 2020 a África foi declarada livre da poliomielite. Neste dia aniversariam Sean Connery, Frei Betto, Tim Burton, Bernardinho, Fernanda Takai. Num 25 de agosto deixaram o mundo: em 1776 David Hume, em 1867 Michael Faraday, em 1984 Truman Capote, em 2012 Neil Armstrong, e em 2019 Fernanda Young.


A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado –
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo – pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

♣

Wislawa Szymborska



Em 25 de agosto de 1961 Jânio Quadros escreveu a carta-renúncia 🙄:

“Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.
“Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração.
“Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.
“Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.
“Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos e de todos para cada um.
“Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalharemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria.”

Brasília, 25 de agosto de 1961. Jânio Quadros

Carta renúncia de Jânio Quadros.
“Ao Congresso Nacional.
Nesta data, e por este instrumento, deixando com o Ministro da Justiça, as razões de meu ato, renuncio ao mandato de Presidente da República.
Brasília, 25.8.61.”


Mas com gente é diferente

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12:2

A carta deste domingo é o nove de paus. Não sei se chegou numa boa hora.Uma das características desta carta é estar sempre defasada. Na hora errada. O 9 de paus fica parado e perde alguns bondes e trens. Essa carta é o tio do pavê, o anacrônico que ainda acha que em pleno 2024 aquilo que não é espelho é mimimi. É uma das faces do nove de Paus, estar em desacordo com seu tempo, não entender o zeitgeist. E nem é preciso ser velho para sofrer do anacronismo deste arcano. Embora essa característica seja mais frequente em pessoas envelhecidas, cronológica ou espiritualmente.
Essa carta é um enorme alerta. Um alerta para que você não se perca na tradução. Para que você consiga traduzir o seu próprio tempo. É a carta que revira os olhos quando dizemos “na minha época que era bom”, “no meu tempo tudo era mais legal/inteligente/interessante______”.
Esse arcano surge como um trem que pára alguns segundos e diz: sobe nesse trem, menina. Se você não subir ele não passará mais. Ele alerta aquelas pessoas que estão nos anos 20 do século XXI usando as ferramentas dos anos 90 do século XX. Meus amores, os anos 90 já foram. Aquilo que você, da minha geração, ou de gerações anteriores, aprendeu naquela época, em sua maioria já passou e não serve mais para analisar e nem para viver os anos 20. Não vamos atrapalhar o século com nossa ignorância, nosso atraso, nossa arrogância que teima em usar fichas de orelhão nos smartphones. Vamos parar de atravancar os caminhos do tempo, os caminhos do mundo. Sabe, é preciso sempre aprender. Uma característica negativa para a qual essa carta alerta é a certeza de que, passados os 20, 30, 40 anos, não se tem mais nada para aprender. É uma carta que adverte para a cristalização do que se pensa saber. Não vamos inventariar nossa sapiência apenas, vamos aprender de novo. Só se vive bem aprendendo. Ah, eu estou cansada, o capitalismo, o trabalho, os filhos, a pobrezaSim, tudo isso e muito mais. Sim, nada disso deveria ser impeditivo, só você pode aprender por si e para si... Não há osmose de conhecimento e aprender inglês dormindo, bem, ¯ \ _ (ツ) _ / ¯
Ah, minha cabeça não dá mais para isso. Oi? Só aprende quem é vivo. O tempo de aprender com os erros ou acertos, ou só aprender, é hoje. Você não é velho demais para isso, nem aos 117 anos.
Talvez a humanidade poucas vezes tenha visto uma mudança tão enorme e radical como, justamente, na passagem dos anos 90 para o nosso agora. Foi radical, foi aterrorizante (se você estava acordado), foi magnífica. Nos meteu nessa embrulhada gigantesca que vivemos agora. O trem da história passou, e nos deixou no orelhão da Telemig esperando a ficha cair. Quer dizer, não deixou a todos, claro.
Trouxe essa geração atual que como toda geração protagonista, é linda. E se você acompanhou e acompanha bem essa passagem das décadas, dos séculos e do milênio, esse arcano só vai lhe trazer bençãos. Ele é o arcano que mais aprende com os erros. Ele é ressabiado, mas aprende, sempre.
Mas se você está parado esperando as ridículas portas da esperança se abrirem para viver, sinto muito por você.
O que quer dizer com isso esse estranho 9 de paus? Quer dizer para você abrir sua velha caixa de ferramentas e se dar conta de que é preciso pensar tudo de novo. E tudo, é tudo, não vai doer. Ou vai, mas não disseram que só tecido morto não dói? É preciso ter 20 anos novamente, é preciso se deslumbrar com o mundo e não atrapalhar, atravancar com falas e atitudes idiotas o caminho de quem está tentando melhorar as coisas. Já temos atrasos demais, por favor, não seja o velho babão que acha o mundo chato porque não pode mais ofender. Até essa advertência já devia ter envelhecido, já devia poder ter sido enterrada. Mas infelizmente, não, tem muito tio e tia véios atravancando vários passarinhos.
Boa semana, queridos, não esqueçam as chaves de fenda, e que suas cabeças façam menos clang clang.

O Nove de Paus é uma carta do tarô que representa resistência, perseverança e proteção. Na imagem mais clássica desta carta, vemos um homem com uma expressão determinada segurando um grande bastão, simbolizando a força interior necessária para enfrentar desafios e superar obstáculos. Quando o Nove de Paus aparece em uma leitura de tarô, ele sugere que a pessoa está passando por um período de dificuldades, mas possui a força e a determinação necessárias para superá-las. Esta carta nos lembra que sempre é possivel evoluir e aprender com os próprios erros. Além disso, o Nove de Paus também fala sobre a importância de estabelecer limites e se proteger. Ele nos lembra que, em certas situações, é fundamental defender nossos interesses e preservar nossa energia. Quando se trata de aprender com os erros, o 9 de paus no Tarô pode oferecer uma perspectiva valiosa. Esta carta nos lembra que todos nós enfrentamos desafios e obstáculos em nossa jornada, e que é importante encontrar força e determinação para superá-los. No entanto, também nos lembra que é fundamental reconhecer quando estamos sobrecarregados e precisamos fazer uma pausa. A capacidade de aprender com os erros está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de nos adaptar e crescer. O 9 de paus nos lembra que cometer erros faz parte da vida, mas o que realmente importa é como lidamos com esses erros. O 9 de paus nos encoraja a não desistir diante das dificuldades, mas também a não deixar que elas nos consumam. Em vez disso, devemos buscar maneiras de superar os obstáculos e aprender com eles. A carta também nos lembra da importância da autoconfiança. Ao aprender com os erros, é essencial acreditar em nossa capacidade de superar desafios e seguir em frente. A autoconfiança nos ajuda a enfrentar os erros de cabeça erguida, sabendo que somos capazes de aprender e crescer com eles.

Um texto que nos mantem eternamente jovens

Mas o que é, afinal, uma noite? Um curto espaço, especialmente quando a escuridão diminui tão cedo, e tão cedo um pássaro chilreia, um galo canta, ou um verde desmaiado se aviva, tal como uma folha revirada no oco de uma onda. A noite, entretanto, sucede à noite. O inverno guarda uma boa safra delas em estoque e as distribui igualmente, imparcialmente, com dedos infatigáveis. Elas aumentam; elas escurecem. Algumas delas mantêm no alto planetas límpidos, placas de luminosidade. As árvores outonais, devastadas como estão, trajam o clarão de bandeiras esfarrapadas ardendo na escuridão dos frios porões de catedrais onde letras douradas sobre páginas de mármore descrevem a morte na batalha e contam como, muito longe, os ossos se desbotam e queimam nas areias indianas. As árvores outonais cintilam à luz amarela do luar, à luz da lua de colheita, a luz que suaviza a energia do trabalho, e amacia o restolho, e traz a onda batendo toda azul na praia.

Parecia agora como se, tocada pela penitência humana e toda sua labuta, a bondade divina tivesse corrido a cortina e exibido, atrás dela, únicos, distintos, a lebre à espreita; a onda quebrando; o barco ondulando; os quais, se os merecêssemos, deveriam ser sempre nossos. Mas, ai – a bondade divina, puxando o cordão, cerra a cortina; isso não lhe agrada; ela cobre os seus tesouros sob uma enxurrada de granizo, e de tal forma os rompe, de tal forma os desintegra que parece impossível que sua calma algum dia retorne, ou que de seus fragmentos possamos, algum dia, recompor um todo perfeito ou ler nos desordenados pedaços as claras palavras da verdade. Pois nossa penitência merece um vislumbre apenas; nossa labuta, uma pausa apenas.

As noites estão agora cheias de ventania e destruição; as árvores cedem e se curvam, e suas defloradas folhas voam a torto e a direito até cobrirem todo o gramado e acabarem aos montes nas bocas de lobo, e entupirem os bueiros, e inundarem as úmidas trilhas. O mar também se agita e rebenta, e caso algum adormecido, imaginando que possa encontrar na praia uma resposta para suas dúvidas, um comparsa para sua solidão, se desfaça de suas roupas de cama e desça sozinho para caminhar na areia, nenhuma imagem, com atitude de ajuda e divina presteza, acorre prontamente para trazer a noite à ordem e fazer o mar refletir a bússola da alma. A mão encolhe-se em sua mão; a voz grita em seu ouvido. Parece quase inútil fazer à noite, nessa confusão, estas perguntas referentes ao quê, e ao porquê, e ao para quê, que tiravam o adormecido de seu leito para buscar uma resposta.

[O Sr. Ramsay, andando aos tropeções por um corredor, numa manhã escura, estendeu os braços, mas, tendo a Sra. Ramsay morrido um tanto subitamente na noite anterior, seus braços, embora estendidos, continuaram vazios.]

Virginia Woolf – Ao Farol – Ed. Autêntica – Tradução Tomaz Tadeu

Meu Coração Navegador

Um pouco de arte também desenferruja e lustra as ferramentas

Livro

Esperando Godot – Samuel Beckett – Esse livro porque todos somos Vladimir e Estragon à beira do caminho. Beckett faz essa assombrosa peça e só quer nos dizer do absurdo que é a vida e nossas esperas. Não sabemos ao certo quando chega Godot. Ontem? Hoje, amanhã? Virá Godot a este lugar? É realmente Godot o nome dele? Precisamos ir embora. Não podemos, estamos esperando Godot… Vladimir e Estragon deixaram quantos bondes passarem? Eu adoro escrever esse almanaque, porque só li este livro agora, e para esse arcano. E que delícia, não poderia realmente não ter lido Esperando Godot. E vocês abram a caixa, e leiam Esperando Godot, que a hora pode chegar ou não. 


Esperando Godot marca o início da publicação da obra de Samuel Beckett pela Companhia das Letras. Expoente do Teatro do Absurdo, escrita em 1949 e levada aos palcos pela primeira vez em 1953, Esperando Godot é uma tragicomédia em dois atos que segue desafiando público e crítica. Na trama, duas figuras clownescas, Vladimir e Estragon, esperam por um sujeito que talvez se chame Godot. Sua chegada, que parece iminente, é constantemente adiada. Em um cenário esquálido ― uma estrada onde se vê uma árvore e uma pedra ―, Beckett revoluciona a narrativa e o teatro do século XX. A edição conta com tradução e posfácio do professor e crítico Fábio de Souza Andrade, ilustração de capa do pintor alemão, e profundo admirador de Beckett, Georg Baselitz e textos críticos inéditos em português dos especialistas Ronan McDonald e Steven Connor.


Filme

Susie e os Baker Boys. Steve Kloves – 1989. Esse filme foi sugestão do Akio, eu tinha visto há muitos anos e não me lembrava mais de muita coisa. Revi hoje. E tem tudo a ver com a carta da semana. É uma história de pessoas que perderam o bonde da vida. O personagem de Jeff Bridges deixou a vida passar em nome de sentimentos variados e sente ter se perdido tentando preservar uma parceria. O filme todo já começa com uma incrível sensação de defasagem de tempo. Nos anos 80, quando foi feito, já estava querendo mostrar um clima de decadência. Os irmãos Baker tocam piano em hotéis, para um público antiquado e já no começo do filme estão em franca decadência. As músicas escolhidas e tocadas por eles já demonstram que o tempo passou e o público esperava coisas novas. Eu amei o filme. É tão nostálgico, transporta a gente direto para os anos 80 e toda sua glória. Mas também toda sua idiossincrasia. Tem coisas que seriam inaceitáveis hoje em dia, e isso mostra que algumas coisas realmente não passam no teste do tempo, como quer mostrar o 9 de Paus. Vale muitíssimo à pena ser visto, é desses filmes que não se fazem mais, desse tipo de filme que só quer contar uma história. Eu queria poder falar com mais propriedade dele, porque me tocou bastante, mas não vai dar tempo, então reforço, vejam, é um filme muito diferente dos filmes feitos hoje em dia e rende uma reflexão muito pertinente sobre o tema da semana.


Os irmãos Frank (Beau Bridges) e Jack Baker (Jeff Bridges) se apresentam juntos em um pequeno porém bem-sucedido número de piano, mas a falta de ambição os prejudica. Eles começam a perder shows e acabam relegados a lugares de terceira categoria. Na tentativa de dar vida nova às apresentações, os irmãos recrutam a bela Susie Diamond (Michelle Pfeiffer). O novo grupo faz sucesso, mas uma crescente atracão entre Susie e Jack ameaça a estabilidade do trio.


Série

Downton Abbey – 2010 -2015. Direção de Brian Percival. Essa é uma das minhas séries preferidas da vida. Adorei ver e invejo as pessoas que nunca viram. E ela mostra muito bem o cenário do 9 de Paus. Mostra a passagem de um mundo a outro, mostra a morte de um tempo com tudo que isso implica. Fala de profundas transformações sociais e das consequencias disso. É muito interssante ver a decadência, se não da aristocracia, pelo menos de seu simbolismo. E é uma ´serie bonita, com histórias ótimas, pouco óbvias e cheia de dramas humanos que são bons de acompanhar. É um 9 de Paus em ação. 


Downton Abbey é uma série de televisão britânica, do gênero drama histórico, ambientada no início do século XX, criada e co-escrita por Julian Fellowes. Produzida pela companhia Carnival Films, a série estreou em 20 de setembro de 2010 na rede ITV no Reino Unido. No início do século XX, a família Crawley luta para manter o legado de Downton Abbey. Após a morte de um parente que estava à bordo do Titanic, Robert Crawley (Hugh Bonneville) descobre que o novo herdeiro da propriedade é um sobrinho distante, Matthew Crawley (Dan Stevens), um advogado com pensamentos modernistas. Enquanto Robert e sua esposa Cora (Elizabeth McGovern) se preocupam com o futuro das suas filhas, Mary (Michelle Dockery), Edith (Laura Carmichael) e Sybil (Jessica Brown Findlay), os empregados da mansão trabalham para manter a rotina da família, com todas as regras da época.


♫ Playlist

Os Cegos do Castelo – Titãs
Mudar – Dani Black & Milton Nascimento
Anacrônico – Pitty
Metamorfose Ambulante – Raul Seixas
Divã – Roberto Carlos
Segue o seco – Marisa Monte
Just breathe – Pearl Jam
Linda Juventude – 14 Bis
Sobradinho – Sá & Guarabira
Admirável chip novo – Pitty
Forever Young – Alphaville
Foi Um rio que passou em minha vida – Paulinho da Viola
The Logical Song – Supertramp
Blowin’ In The Wind – Bob Dylan
Disparada – Jair Rodrigues
Quero Voltar pra Bahia – Paulo Diniz
Saudosa Maloca – Adoniram Barbosa


O jabuti que só possuía uma casca branca e mole deixou-se morder pela onça que o atacava. Morder tão fundo que a onça ficou pregada no jabuti e acabou por morrer.
Do crânio da onça o jabuti fez seu escudo.

Antonio Callado

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. Estamos morrendo esturricados.

Resumo do post de hoje

Assistam, é curtinho, menor que um story

Se não der, clique aqui


25 de agosto é o 237.º dia do ano no calendário gregoriano (238.º em anos bissextos). Faltam 128 dias para acabar o ano.

 

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/08/25/se-voce-trouxer-o-seu-lar/feed/ 3
https://almanaque.nalu.in/2024/08/11/relembro-a-casa-com-varanda/ https://almanaque.nalu.in/2024/08/11/relembro-a-casa-com-varanda/#comments Sun, 11 Aug 2024 03:14:31 +0000 https://almanalua.blog/?p=886 relembro a casa com varanda

Belo Horizonte, 11 de agosto de 2024

☀ 11° – 27°


Dia dos pais, do estudante e do advogado. Em 1827, D. Pedro I instituiu os dois primeiros cursos de ensino superior no Brasil, por isso se celebra o dia do estudante. Em 1827, foram criadas as duas primeiras faculdades de Direito no Brasil – a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, e a Faculdade de Direito de Olinda, e por isso se celebra o dia do advogado. Em 1938 foi fundada a União Nacional dos Estudantes. Em 1942 Hedy Lamarr recebe a patente para um sistema de comunicação que se tornou a base para os telefones sem fio e Wi-Fi. Em 1979 Led Zeppelin se apresentou pela última vez na Inglaterra. Em 1744 nasceu Tomás Antônio Gonzaga, em 1897 Enid Blyton, em 1921 Alex Haley, em 1959 Gustavo Cerati, em 1965 Viola Davis, em 1983 Tatá Werneck. Em 1253 morreu Clara de Assis e em 2014 se foi Robin Williams.


Pai 
Meu pai tem Alzheimer
e todo dia me pergunta
que dia é hoje.
Eu digo que é Dia dos Pais
e tasco-lhe mais um abraço.

♣

Carlos Edu Bernardes



Em agosto de 1950 anotou Jack Kerouac em seu diário:

DA CIDADE DO MÉXICO A NOVA YORK: AGOSTO DE 1950

Ferrocarril de México. Vagão-leito para Laredo, Texas – então ônibus para San Antonio – para Baltimore – para N.Y. (com um quilo de maconha tratada preso à cintura por um ca­che­col) – –

: – CANÇÃO – :
Deixei Nova York
Em quarenta e nove
Para cruzar o país
Sem sequer um cobre.
Foi em Butte Montana
No frio, frio outono
— Encontrei meu pai
em um cassino jogando.
_________
“Pai, pai
Por onde andaste;
Perdido está quem não é amado,
Quando você é tão pequeno.”
_________
“Querido filho”, falou,
“Não vá se preocupar,
“Pois a pleurisia em breve
Vai me matar.”
_________
Seguimos juntos para o Sul
Em um velho trem de carga,
Na noite em que morreu meu pai
Na noite fria, fria.
_________
“Querido filho”, falou,
“Não vá se preocupar;
“Deite-me para que
A miséria venha me matar.”
_________
Pai, pai
Por onde andaste;
Perdido está quem não é amado,
Quando você é tão pequeno.”

Jack Kerouac – Diários de Jack Kerouac – 1947-1954 – Ed. L&PM


Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo.

Colossenses 3:21

No Dia dos Pais, dos estudantes, dos advogados era mister nos aparecer um Rei! Os pais e as figuras paternas são reis, para o bem e para o mal. Por isso nascemos todos na realeza, todo menino é um rei. É o princípio paterno que nos introduz no mundo e nos mostra como andar sem cair. A energia de uma carta real no dia dos pais mostra essa face, a face daquele que abre o caminho para gerações mais novas, que é o pioneiro. O Rei de Paus é um pioneiro, é um desbravador. O Rei de Paus tem o epíteto da coragem. Ele é o arcano que aprende com os erros, o Rei de Paus tem a coragem de saber-se errado e de admitir que errou. Essa é uma das suas maiores lições. Se as figuras paternas da sua vida souberam fazer isso e te mostraram o caminho de errar e admitir o erro, você é um privilegiado. Mas muitas vezes as figuras paternas que atravessam a nossa vida são de uma natureza bem menos benevolente do que o Rei de Paus. Se é esse o caso, existe outra lição que ele traz: é sempre necessário ser pai de si mesmo, desbravar sozinho esse caminho, e limpar o terreno para florescer de si mesmo. Tarô é manual de vida e ensina isso. É preciso ser senhor da própria casa, em algum momento. Mesmo que os bárbaros sempre venham, afinal.

Nesse 11 de agosto, o Rei de Paus aparece para nos lembrar também que todos viemos de algum lugar, estamos todos interconectados uns aos outros e ao todo que nos propiciou a existência. Foi necessária toda uma cadeia de pessoas, de vontades e de acontecimentos para que estivéssemos aqui nessa hora e lugar e aqui é sempre melhor do que não estar. Essa reverência ao que nos antecedeu é o que nos diz hoje o Rei de Paus. Ele nos lembra que podemos ser pioneiros, mas que viemos de algum lugar e que sempre geramos vida, que nossa intervenção nesse mundo sempre deixa uma marca, sejamos ou não genitores de humanos, não é sobre isso. É a lição de que não passamos impunes nem incólumes por tudo isso, que precisamos deixar tudo melhor e precisamos levar em conta a hierarquia do Holístico (oi Fê), que nos gerou e nos faz gerar. O Rei de Paus é coragem de ser, é a força da lei que nos empurra para crescer, que nos empurra do ninho e da caminha quente rumo ao viver, que é tão pequeno diante do Tempo.

Nesta semana, sejamos nossos próprios pais, criemos coragem, pensemos em deixar um mundo melhor para quem vem depois. Vamos prover, como bons pais,  um lugar de conforto. E sem esquecer que o mundo existe para ser desbravado com coragem e hombridade. E não esqueçamos que: noblesse oblige. Todo Rei digno desse nome só faz as coisas com nobreza. Paternar é dádiva de Reis.

Alice Walker conta uma história linda sobre esse paternar nobre:

Quando eu tinha três ou quatro anos, quebrei um jarro, e como eu tinha irmãos, poderia ter dito que eles o tinham quebrado, ou poderia ter dito que tinha escorregado. Lembro que meu pai me perguntou se eu tinha feito isso, e eu olhei para ele e pensei, nossa, essa é uma pessoa que eu realmente amo e ele ficaria feliz se eu não tivesse quebrado essa coisa. Por outro lado, ele estava olhando para mim com tanta expectativa que eu me vi indo ao encontro de sua expectativa com uma necessidade real de expressar a verdade, porque esse é o sentimento mais maravilhoso que existe. Então eu disse: “Sim, eu quebrei o jarro.” Sua resposta não foi gritar nem me bater, nem nada parecido, mas sim irradiar esse amor incrível para mim, e essa foi sua maneira de me ensinar sobre dizer a verdade e o que é possível. É possível que se você disser a verdade, não apenas você será libertado da prisão da mentira, mas a pessoa que ouve a verdade também será aberta e poderá se deliciar.

Nesta semana, para florescer, peçamos ao arquétipo de Pai que todos carregamos: meu pai/ dá-me a tua pequena/ chave das grandes portas/ dá-me a tua lamparina de rolha, /estranha bailarina das insônias /meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.*

Boa semana, voem do ninho.

* Vinícius de Morais

O Rei de Paus é uma das cartas mais poderosas e influentes do tarô. Representando o elemento fogo, esta carta está associada a energia, ação, criatividade e liderança. Quando esta carta aparece em uma leitura, ela sugere que é hora de assumir o controle da situação e agir com confiança e determinação. O Rei de Paus é um líder nato. Ele é carismático, inspirador e possui uma grande capacidade de motivar os outros. Ele é corajoso e está disposto a assumir riscos calculados para alcançar seus objetivos. Esta carta também sugere que é hora de ser assertivo e defender suas crenças e valores. Se você tem uma ideia ou um projeto em mente, este é o momento de colocá-lo em prática e liderar pelo exemplo. Esta carta também sugere que é hora de ser empreendedor e buscar novas oportunidades de crescimento e desenvolvimento. No aspecto amoroso, o Rei de Paus representa paixão e romance.  No aspecto espiritual, o Rei de Paus sugere que é hora de se conectar com sua paixão interior e buscar a realização pessoal. Esta carta também indica que é hora de assumir a responsabilidade por sua própria jornada espiritual e buscar o crescimento pessoal de forma ativa. O Rei de Paus é uma carta que representa liderança, ação e paixão. Quando esta carta aparece em uma leitura, ela sugere que é hora de assumir o controle da situação, agir com confiança e determinação, e buscar ativamente seus objetivos. Esta carta também nos lembra da importância de ser corajoso, assertivo e apaixonado em todas as áreas de nossas vidas.

Um texto que não foi amparo

Querido pai,

Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. E se procuro responder-te aqui por escrito, não deixará de ser de modo incompleto, porque também no ato de escrever o medo e suas conseqüências me atrapalham diante de ti e porque a grandeza do tema ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.

Para ti a questão sempre se apresentou bem simples, pelo menos enquanto falaste dela diante de mim e, sem cuidar a quem, diante de muitos outros. Para ti as coisas pareciam ser mais ou menos assim: tra-balhaste pesado durante tua vida inteira, sacrificaste tudo pelos teus filhos, e sobretudo por mim, enquanto eu “vivi numa boa” por conta disso, gozei de toda a liberdade para estudar o que bem quisesse, não precisei ter nenhuma preocupação com meu sustento e portanto nenhuma preocupação, fosse qual fosse; não exigiste gratidão em troca disso, tu conheces “a gratidão de teus filhos”, mas pelo menos um pouco de boa vontade, algum sinal de simpatia; em vez disso eu sempre me encafuei de ti em meu quarto, com meus livros, com amigos malucos, com idéias extravagantes; falar de maneira aberta contigo eu jamais falei, no templo jamais fui ao teu encontro, em Franzensbad jamais te visitei e aliás jamais tive senso de família, não me importei com o negócio nem com teus demais assuntos, a fábrica eu joguei às tuas costas e depois te abandonei, apoiei Ottla em sua teimosia e, enquanto não movo um dedo por tua causa (nem sequer uma entrada de teatro eu trago a ti), faço tudo por estranhos. Se resumires teu veredicto a meu respeito, te darás conta de que não me acusas de nada indecoroso ou mau, é verdade (excetuado talvez meu último propósito de casamento), mas sim de frieza, estranheza, ingratidão. E tu me acusas de tal modo, como se fosse culpa minha, como se eu pudesse, com uma guinada no volante, por exemplo, conduzir tudo para outra direção, ao passo que tu não tens a menor culpa a não ser talvez pelo fato de ter sido demasiado bom para comigo.

Essa tua maneira usual de ver as coisas eu só considero certa na medida em que mesmo eu acredito que não tenhas a menor culpa em nosso alheamento. Mas também eu não tenho a menor culpa. Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possível, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais -, mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações.

Curiosamente tu tens alguma noção a respeito daquilo que estou querendo dizer. Assim, por exemplo, disseste há algum tempo: “Eu sempre gostei de ti, mesmo que na aparência eu não tenha te tratado como outros pais costumam tratar seus filhos, justamente porque não sei fingir como eles”. Ora, pai, no que diz respeito a mim, jamais cheguei a duvidar de tua bondade para comigo, mas considero esta observação incorreta. Tu não consegues fingir, é verdade, mas afirmar, apenas por esse motivo, que os outros pais fingem é ou pura mania de mostrar razão a fim de acabar com a discussão ou – e é isso que de fato acontece, na minha opinião – a expressão disfarçada de que as coisas entre nós não estão em ordem e de que tu ajudaste a provocá-las, mas sem culpa. Se de fato pensas assim, então estamos de acordo.

Naturalmente, não quero dizer que me tornei o que sou apenas através da tua ascendência. Isso seria por demais exagerado (e eu até me inclino a esse exagero). É bem possível que eu, mesmo se tivesse crescido totalmente livre da tua influência, não pudesse me tornar um ser humano na medida em que o teu coração o desejava. É provável que mesmo assim eu me tornasse um homem débil, amedrontado, hesitante, inquieto, nem um Robert Kafka nem um Karl Hermann, mas de todo diferente do que hoje sou, e nós poderíamos suportar um ao outro de forma maravilhosa. Eu teria sido feliz em ter a ti como amigo, como chefe, como tio, como avô, até mesmo (embora já mais hesitante) como sogro. Mas justamente como pai tu foste demasiado forte para mim, sobretudo porque meus irmãos morreram ainda pequenos, minhas irmãs só vieram muito depois e eu tive, portanto, de suportar por inteiro e sozinho o primeiro golpe, e para isso eu era fraco demais. (…)

Franz Kafka – Carta ao Pai – Ed. L&PM

Arteterapia

Que aqueles de nós que não pudemos contar com um pai efetivo sejamos consolados, porque a arte é consolo, é cura e abertura. Que no seu caminho de autopaternidade você possa ser pleno e que a arte ajude a tornar menos duro o fardo da ausência de qualquer Pai. Com as bençãos do Rei de Paus, que a coragem seja encontrada na arte e na vida.

Livros

A Estrada – Cormac McCarthy – Tradução de Adriana Lisboa. Esse livro é sensacional. Eu gostei demais, acho uma belíssima história sobre pai e filho, sobre o que significa cuidar, desbravar caminho para um filho num mundo desolado. É muito bonita a metáfora para nossa condição e é mais atual agora nesse cenário meio apocalíptico que estamos vendo.


Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver. A Estrada representa uma mudança surpreendente na ficção de Cormac McCarthy e talvez seja sua obra-prima. Mais que um relato apocalíptico, é uma comovente história sobre amadurecimento, esperança e sobre as profundas relações entre um pai e seu filho.


Um livro que ainda não li, mas que quero ler.

O Meu Pai Voava - Revista BICA

Meu Pai Voava – Tânia Ganho. Continuando a tradição de livros que eu quero ler, esse livro, que nem saiu no Brasil, mas que pode ser adquirido em e-book. Li as primeiras páginas e já me cativou. 


A consciência do fim é algo que, por muito que achemos que estamos preparados para a enfrentar, a nossa condição de humanos não nos deixa nunca encarar de ânimo leve. Depois do fim, o luto é um lugar a que chegamos sem contar.  Há uma verdade muito íntima com que Tânia Ganho nos fala do período de luto pela morte do seu pai. Ninguém nos diz que vai ser assim, e por isso a ideia de que cada processo de luto é inigualável. A autora vai-nos contando cenas da sua vida ao lado de um pai muito presente, e a mácula que deixa essa ausência. Embora idoso e já num processo demencial avançado, a verdade é que nada disso interessa perante a ideia do desaparecimento, sempre súbito, sempre abrindo portas a uma divisão da casa que não conhecíamos. O livro, que se lê como uma respiração profunda, mostra-nos momentos de grande comoção e outros que conseguem ser divertidos, quando nos conta alguns aspetos do feitio do seu pai. No fim, a filha, a “menina do papá”, um retrato de uma beleza incrível sobre um momento triste, o tempo mais triste de todos.


Um belíssimo livro nacional

Caderno de Um ausente – João Anzanello Carrascoza – Eu gostei demais desse livro. É um livro curto, muito bonito de se ler, que me deixou pensativa durante semanas. Carrascoza escreve muito bem, eu adoro tudo que li dele, mas talvez este seja o meu preferido. 


Como o título traz, o narrador desta história, um homem de cinquenta e tantos anos, escreve em um caderno anotações de vida para sua filha recém-nascida, Beatriz. Temeroso de que não acompanhará a maturidade da filha, uma vez que a diferença de idade é muito grande, o homem se põe a narrar a história da família entremeando com impressões filosóficas e poéticas sobre a trajetória de uma vida. A intenção do pai, porém, não é mostrar uma verdade, mas sim a delicadeza — “e eu só sei, Bia, que, em breve, não estaremos mais aqui, e, enquanto estivermos, eu quero, humildemente, te ensinar umas artes que aprendi, colher a miudeza de cada instante, como se colhe o arroz nos campos, cozinhá-la em fogo brando, e, depois, fazer com ela um banquete”. Mas mesmo essas palavras, que compõem pequenos trechos escritos ao longo do primeiro ano de vida da criança, não são suficientes para satisfazer o pai — “eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegaste, a certeza da despedida”. No texto deste “caderno”, o leitor pode acompanhar também a inquietação do pai, ao longo de um ano, pela saúde da mãe de Bia, que vive doente e requer cuidados tanto quanto a criança. O leitor irá reparar que o texto diagramado apresenta espaços em branco — além de expressarem os vazios que a ausência já ocupa, são hesitações deste pai ao tentar escrever a educação sentimental para a filha.


Quadrinho

Fun home: Uma tragicomédia em família

Fun Home – Alison Bechdel – Tradução de André Conti. Ah, essa HQ. Tocante, diferente, bem humorada e ao mesmo tempo, triste. Um retrato da marca que um pai deixa numa filha. Uma reflexão comovente sobre sexualidade, morte, relações familiares. Soa clichê, mas é realmente sobre isso tudo e é realmente uma história em quadrinhos muito boa. Com a elegância da escrita de Alison Bechdel, com sua profundidade e visão e traço bonito. Vale a pena demais a leitura e tem toda razão de estar sempre entre os melhores livros que falam de paternidade.


Fun Home é um marco dos quadrinhos e das narrativas autobiográficas, além de uma obra-prima sobre sexualidade, relações familiares e literatura. Um labirinto da memória trazido à tona com graça, humor e a força das maiores realizações artísticas. Pouco depois de revelar à família que é lésbica, Alison Bechdel recebe a notícia de que seu pai morreu em circunstâncias que poderiam indicar um suicídio. Nesta aclamada autobiografa em quadrinhos, ela explora a difícil, dolorosa e comovente relação com o pai. A autora retraça também os próprios passos, da criança que cresceu entre os cadáveres da funerária da família à jovem que se encontrou nos livros e na arte. Num trabalho imensamente poderoso e sutil, Bechdel trilha o caminho de sua vida em busca de um pai tão enigmático quanto incontornável.


Filme

(uma capa horrível para um filme maravilhoso)

Pai Patrão – Paolo e Vittorio Taviani – 1977. Nossa, nunca mais vou esquecer o impacto que esse filme teve em mim. É uma mostra tão perfeita e dolorosa do que ainda podem ser as relações entre pais e filhos… Talvez ele machuque as sensibilidades dos anos 20, mas eu ainda vou defendê-lo, pois ele é arte pura e não é papel da arte, nos deixar confortáveis. A arte também tem que nos deixar sem ar, nos deslocar do nosso eixo, nos perturbar. E esse filme faz isso bem, talvez faça melhor ainda hoje do que nos anos 70. E nos faz refletir por muito tempo sobre as relações de autoridade e as relações pais e filhos. e sobre a vida, a existência e tudo o mais…


Pai Patrão é um dos filmes mais aclamados dos anos 70, obra-prima dos irmãos Taviani. Adaptação do relato autobiográfico de Gavino Ledda, mostra a trajetória de um menino que é obrigado pelo pai a abandonar os estudos para trabalhar no campo, cuidando de ovelhas na Sardenha, sul da Itália. Todas as suas tentativas de mudar de vida são frustradas pela ignorância e pela violência do patriarca. Com o tempo, Gavino descobre que sua única saída é estudar. Ter a arma que seu pai não possui: a cultura.

Festival de Cannes – Palma de Ouro e Prêmio da Crítica – Melhor Filme e Festival de Berlim – Vencedor do Interfilm Grand Prix – Melhor Filme.


Filme

Capitão Fantástico – Matt Ross – 2016. Coloco este filme aqui porque se O Labirinto do Fauno é meu filme materno, esse é o meu filme paterno. Esse filme, controverso, que muita gente interessante não gosta, é um dos meus filmes queridos, que me faz sorrir só de pensar nele. É um filme no qual meu coração se alegra e se refugia, Adorei, adoro e acho que além de uma linda história, é uma bela reflexão, principalmente para quem tem um pouco de alma hippie. Adoro esse pai do filme, embora ele possa ser deplorável às vezes, como todos nós. 


Capitão Fantástico é um filme de 2016 cuja história gira em torno de Ben, interpretado por Viggo Mortensen, um pai que decidiu criar seus seis filhos longe da civilização, em meio às florestas do noroeste do Pacífico.É sobre um pai não convencional, que cria seus seis filhos nas florestas do Noroeste do Pacífico, isolados da sociedade. Quando é forçado a tirar sua família do isolamento e ir para o mundo real, ele entra em confronto com seu sogro que quer que os netos tenham uma vida normal. Agora Ben começa a questionar se seus métodos são os melhores para sua família.  A trama se desenrola quando a família precisa deixar sua vida isolada e enfrentar o mundo real devido a uma tragédia familiar. A partir desse momento, somos levados a questionar se o estilo de vida adotado por Ben é realmente o melhor para seus filhos. A obra nos faz refletir sobre o equilíbrio entre a liberdade e a responsabilidade, sobre como encontrar um meio termo entre viver em harmonia com a natureza e se encaixar na sociedade. Além disso, o filme também aborda temas como a perda, o luto e a busca pela felicidade, mostrando como cada membro da família lida de forma diferente com essas questões.


Dois pais, duas séries

Game of Thrones (TV Series 2011–2019) - IMDb

Ned Stark – Game of Thrones – Um ótimo exemplo de Rei de Paus, alguém que abriu caminho e deixou um legado, dando espinha dorsal para os filhos. O Rei de Paus é aquele que estrutura os súditos, os filhos. É aquele que segura o reino pelo chifre para que os filhos tenham sua vez em paz. É claro que ele nem sempre consegue, mas sua missão é tentar, com coragem, nobreza e honradez.

Pôster This is Us - Pôster 70 no 457 - AdoroCinema

Jack, This Is Us – O pai quase perfeito, o pai ideal, que todos mereciam, e que talvez por ser tão próximo do ideal (a não ser porque era um estadunidense branco 😂) não viveu tanto. Mas é outro exemplo de pai que deu espinha dorsal e estrutura para os filhos. 


Playlist

Velha infância – Tribalistas
Pai – Fabio Jr.
Naquela Mesa – Nelson Gonçalves
Coisa de Preto – Martinho da Vila
Brucia La Terra – The Godfather 3
Coisinha do pai – Beth Carvalho
Como nossos pais – Elis Regina
Quem sabe isso quer dizer amor – Milton Nascimento
Father and son – Cat Stevens
Where do the children play – Cat Stevens
O Divã – Roberto Carlos
Meu querido, meu velho, meu amigo – Roberto Carlos
Muito Orgulho, Meu Pai – Gabriel o Pensador
Sina – Djavan
Casa de Bamba – Martinho da Vila
Pai e Mãe – Gilberto Gil
Espelho – João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Pedro, Meu Filho… – Vinicius de Moraes
Meu pai – Renato Braz
Todo menino é um rei – Renato Braz


Esse post é para os pais da minha vida. Akio e Sr. Waldemiro. 

Cuidadoso, o pai
descascava a tangerina.
Perfumava a infância.

♣

Lena Jesus Ponte

Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. E esse inverno infernal?

11 de agosto é o 223.º dia do ano no calendário gregoriano (224.º em anos bissextos). Faltam 142 dias para acabar o ano.

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/08/11/relembro-a-casa-com-varanda/feed/ 3
https://almanaque.nalu.in/2024/07/21/na-boca-da-noite-um-gosto-de-sol/ https://almanaque.nalu.in/2024/07/21/na-boca-da-noite-um-gosto-de-sol/#comments Sun, 21 Jul 2024 03:05:45 +0000 https://almanalua.blog/?p=878 na boca da noite um gosto de sol

Belo Horizonte, 21 de julho de 2024

 ☀12° – 26º

🔺Alerta de baixa umidade


Em 21 de julho de 1853 foi criado o Central Park. Em 1969  às 02:56 UTC, o astronauta Neil Armstrong se tornou a primeira pessoa a caminhar na Lua. Em 1983 foi registrada a temperatura mais baixa do mundo em um local habitado, na Estação Vostok, Antártica, a -89,2 °C. Em 1899 nasceu Ernest Hemingway, em 1914 Philippe Ariès, em 1944 Jovelina Pérola Negra, em 1971 Charlotte Gainsbourg. Em 2023 morreu Tony Bennett.


FOTOGRAFIA

os turistas não entenderam
por que aos onze anos
não quis entrar na tumba
no meio do deserto
fiquei no ônibus muito cética
aos cuidados do motorista
que riu do meu descaso
e me trouxe uma coca-cola
depois de tanta ruína
amarelo sobre amarelo
é difícil enxergar o extraordinário.
àquela altura eu não sabia
por milímetros não acertamos
nem um beijo na esfinge.

♠

Julia de Souza



Em julho de 1866, num dia que pode muito bem ter sido o 21, escreveu Louisa May Alcott em seu diário:

Ficarei na senhora Travers até o dia 7. Encontrei-me com  Routledge para falar de Moods. Ele o aceitou, disse que gostaria de outro livro e foi muito simpático. Disse adeus e, às seis horas do dia 7, parti para Liverpool com o senhor W., que cuidou da minha bagagem e foi embora. Cheguei em segurança ao Africa.  Uma viagem de catorze dias tempestuosos, maçantes, longos e muito enjoo, mas, enfim, às onze da noite, navegamos pelo porto sob o luar e  eu vi o querido John esperando por mim no cais. 

Dormi a bordo, e no dia seguinte cheguei a casa ao meio-dia para encontrar papai na estação, Nan e os filhos no portão, May correndo loucamente pelo gramado e mamãe chorando à porta. Joguei-me em seus braços e, finalmente, estava em casa. Dias felizes, conversando e nos curtindo. Muitas pessoas vieram me ver, e todos disseram que eu melhorara muito; fiquei contente, pois para  isso sempre houve, há e haverá possibilidade.

Louisa May Alcott: Vida, Cartas e Diário – Ednah Dow Cheney. Ed. Principis

E Josué disse: Ó Senhor, meu Deus! Afinal de contas, por que fizeste este povo atravessar o rio Jordão? Foi para nos entregares aos amorreus, e eles nos matarem?
Por que não ficamos do outro lado do Jordão?
Josué 7:7

Existe é homem humano.

“Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou: viver não é muito perigoso? Carece de ter coragem.”

João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

tra·ves·si·a
sf
1. Ato ou efeito de atravessar uma região, um continente, um mar etc.; travessa.
2. Vento forte e contrário à navegação.
3. Distância entre dois pontos marítimos ou terrestres.
4. Ação de atravessar gêneros, de açambarcar mercadorias.
5. Longo trecho de caminho desabitado.

♠

Neste 21 de julho nos chega o Arcano-travessia. O 6 de espadas. Depois deste hiato, (que ainda vai acontecer outras vezes nestas páginas, pois estou ainda longe de estar bem), chegamos numa espécie conclusão de jornada. O 6 de espadas fala sobre esse atravessar, muitas vezes sofrido, muitas vezes turbulento, mas mostra que chegamos inteiros ao fim de uma das muitas jornadas que faremos nesta travessia que é a vida. O primeiro verso da Divina Comédia de Dante já nos avisa do seguinte:

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

A metáfora da estrada, da travessia, é tão antiga quanto as mais antigas páginas da cultura ocidental. E se assim é, talvez seja porque de fato experienciamos como travessia, como viagem e jornada várias passagens da nossa vida, vários estágios e acontecimentos. É de um desses estágios que nos fala o arcano de hoje. Ele mostra que viajamos por algum lugar em águas outrora turbulentas e estamos nos aproximando de águas mais calmas. Temos terra à vista. Mirando o espelho de nossas vidas, o que encaramos neste momento de 6 de espadas é a chegada em algum lugar. Um alívio, um porto seguro. Ainda temos dor, ainda estamos doloridos da caminhada, molhados das tempestades, mas temos sol para aquecer e secar nossas vestes. Chegamos em algum lugar. Conseguimos desvencilhar alguma pendência, alguma dificuldade se foi. É um momento de celebração, embora não festiva ou efusivamente completa porque vem de uma trilha de espadas. Mas de toda forma, é um momento de descanso e ganho.

A experiência da travessia, do caminho pode ser pensada no seu caráter de vida pura e pulsante. Atravessando estamos comprometidos com o real, comprometidos com a ação e a responsabilidade, mesmo que não tenhamos consciência ou que seja intencional esse compromisso. Mas estar a caminho é estar mergulhado na vida e na esperança, ninguém se levanta para viajar sem uma sorte de fé ou de esperança.  A travessia mostra a vida como força real. E além disso exige uma dose de singularidade e liberdade.  Heidegger escreveu que tudo está no caminho, e que nós mesmos somos o caminho. E tinha razão o complicado filósofo.

E estritamente, quando buscamos um caminho, qualquer caminho, já estamos nele. Estar no caminho é condição da travessia, e é inescapável, não saímos de nós, e somos o caminho, e Nele, que é o caminho, a verdade e a vida. Essa é a metáfora poderosa. Isso numa dimensão basicamente ontológica, do nosso ser. Atravessar é, basicamente, ser. E estar vivo. Então, se chegamos estropiados e cansados a algum lugar, agradeçamos. E se não chegamos ainda, agradeçamos também, pois estamos a caminho, estamos sempre a caminho, se ainda existe vida.

Sebo nas canelas, queridos. Ou se já estão adiantados e chegaram, banhem-se e descansem, tem muita estrada ainda. Oxalá.

A carta 6 de espadas está associada ao elemento ar, que representa a mente, a comunicação, a intelectualidade e a razão. Ela também está relacionada ao número 6, que simboliza harmonia e cooperação. Essas associações influenciam a interpretação e o significado da carta 6 de espadas no contexto de uma leitura de tarô. A imagem da carta 6 de espadas mostra um barco navegando em águas calmas, conduzido por uma figura que parece estar em uma jornada. Esta imagem sugere um movimento tranquilo em direção a um novo destino, simbolizando a transição, a mudança e a superação de desafios. A presença das espadas na imagem indica que essa jornada envolve questões mentais, intelectuais e de comunicação. A carta 6 de espadas geralmente é interpretada como um sinal de que é chegada a hora de descansar em alguma vitória. Ela nos encoraja a buscar novos horizontes, a nos afastar de conflitos e dificuldades e a nos abrir para novas perspectivas. Essa carta também pode indicar a necessidade de buscar orientação, conselho ou apoio para lidar com as mudanças que estão por vir. Em termos de relacionamentos, a carta 6 de espadas pode indicar a necessidade de deixar para trás ressentimentos, mágoas ou desentendimentos do passado e seguir em direção a uma fase mais tranquila e harmoniosa. Ela sugere a importância da comunicação aberta e honesta para superar desafios e fortalecer os laços afetivos. No âmbito profissional, a presença da carta 6 de espadas pode apontar para a necessidade de se afastar de ambientes ou situações desgastantes. Ela também pode indicar a importância de buscar orientação ou mentoria para avançar em nossa carreira ou projetos profissionais.

Em termos de saúde e bem-estar, a carta 6 de espadas sugere a importância de cuidar da saúde mental, de buscar o equilíbrio emocional. Ela também pode indicar a necessidade de buscar apoio profissional para lidar com questões emocionais ou mentais. Ao incorporar os ensinamentos dessa carta em nossa vida, podemos encontrar maior clareza mental, equilíbrio emocional e um caminho mais harmonioso em direção ao nosso crescimento pessoal e espiritual.

Um texto para singrar qualquer mar

Assim correm as histórias, e como eu poderia deixar de lembrá-las enquanto bebericamos nosso vermute de despedida e eu escrevinho estas linhas? Mal seriam necessárias para reavivar o respeito que sinto diante de nossa empreitada, pois sou um sujeito respeitoso e, por assim dizer, trago as sobrancelhas sempre levantadas, como todo homem a quem coube a dádiva divertida, mas provinciana, de ter fantasia. Ninguém se torna um homem do mundo por obra dela, pois a fantasia nos “preserva” – se é que cabe o termo elogioso – de toda superioridade até a velhice. Ter fantasia não significa ser capaz de inventar uma coisa, e sim de levar as coisas a sério – e isso não é próprio do homem do mundo. Estamos aqui, muito implausivelmente, a ponto de repetir a viagem de Colombo além do Ocidente; por dias e dias vagaremos (em primeira classe) no vazio cósmico, entre dois continentes – mas não creio que a maioria de nossos companheiros de viagem esteja pensando alguma coisa do gênero a respeito. Onde estão, aliás? Estamos sozinhos no salão forrado de couro, agradavelmente vazio, e agora me ocorre que éramos praticamente só nós na lancha que nos trouxe até aqui pelas águas do porto de Boulogne-Maritime. O atendente do bar aproxima-se e informa, balançando a cabeça, que quatro passageiros da primeira classe, incluindo nós dois, embarcaram aqui, uma dúzia já vinha de Roterdam e quatro mais chegarão hoje à noite, em Southampton. Ninguém mais. O que dizer? Dizemos que, numa viagem como essa, a companhia de navegação inevitavelmente perderá muito dinheiro. Uma pena, é a crise, a depressão. Mas na viagem de volta, concordamos com ele, tudo deverá melhorar. Em junho começa a temporada europeia para os americanos: Salzburgo, Bayreuth, Oberammergau acenam à distância, não há erro. É nesses termos que ele se refere, tacitamente, às gorjetas. Assim-assim, com nítida reticência, o sujeito preocupado vai se conformando com a situação, enquanto ponderamos, do nosso ponto de vista, que será muito agradável viajar num navio tão vazio. Será quase todo nosso, viveremos como num iate particular. E a ideia de que não serei perturbado me leva de volta à minha leitura de viagem, ao volumezinho cor de laranja que, parte de um todo bem maior, está aqui a meu lado.

Leitura de viagem – um gênero cheio de conotações de pouco valor. A opinião geral pretende que o que se lê em viagem deve ser o mais fácil e raso possível, alguma besteira para se “passar o tempo”. Nunca entendi por quê. Pois, deixando de lado que a dita literatura de entretenimento é sem dúvida a coisa mais aborrecida que há na Terra, não consigo aceitar que, justamente numa ocasião séria e solene como uma viagem, devamos abdicar de nossos hábitos espirituais e nos entregar à tolice. O ambiente relaxado e descontraído da viagem criaria talvez uma disposição dos nervos e do espírito em que a tolice causasse menos repulsa que de costume? Falava ainda há pouco sobre respeito. Como tenho estima por nossa empreitada, parece-me certo e apropriado que também tenha estima pela leitura que há de acompanhá-la. O Dom Quixote é um livro mundial – o livro justo para uma viagem pelo mundo. Escrevê-lo foi uma aventura ousada, e a aventura receptiva que se cumpre ao lê-lo está à altura das circunstâncias. É estranho, mas jamais levei sua leitura sistematicamente até o fim. Quero fazê-lo a bordo e chegar à outra margem deste mar de histórias, assim como, dentro de dez dias, chegaremos à outra margem do oceano Atlântico.

O cabrestante rangeu enquanto eu registrava este propósito por escrito. Vamos agora subir ao deque e ver o que fica para trás e o que vem pela frente.

Thomas Mann – Viagens Marítimas com Dom Quixote – Ed. Zahar

Sem livros e sem Fuzil

Arte de travessia, alegria alegria que tem demais. Que delícia estar vivo se tem tanto ainda.

Livro

Odisseia – Homero. Não é possível falar de travessia sem pensar na Odisseia né? A travessia das travessias. Eu não terminei de ler ainda. Não inteirinha, de maneira linear. Mas já li várias vezes de maneira desordenada. Ainda não me autorizei a dizer: sim eu já li a Odisseia, mas a verdade é que mesmo quem não leu mas é ligado em literatura e na Grande Conversa mundial sabe o que acontece na Odisseia. E essa odisseia em específico, é uma volta pra casa. E isso é muito característico da carta 6 de espadas. A jornada de Ulisses é a que está inscrita em todos nós que fazemos parte do centro ou da periferia do ocidente. Uma parte imensa de nossa arte bebeu na Odisseia e é produto dela. Então é esse o livro por excelência do arcano 6 de paus.  O que me encanta nele é esse mote de que a travessia é a própria vida. As muitas travessias de Ulisses nos ensinam o que é ser um humano. Ulisses cria a si mesmo atravessando, mesmo que já seja muito ser humano quando começa a longa jornada de volta. O encanto da Odisseia ainda é vivo, ainda pulsa e vale a pena ler, seja de maneira caótica, como a minha travessia, ou de maneira linear. Ler a Odisseia já pode ser em si uma travessia. 


A narrativa do regresso de Ulisses a sua terra natal é uma obra de importância sem paralelos na tradição literária ocidental. Sua influência atravessa os séculos e se espalha por todas as formas de arte, dos primórdios do teatro e da ópera até a produção cinematográfica recente. Odisseia se tornou também um substantivo comum, que denomina jornadas marcadas por perigos e eventos inesperados, e Homero um adjetivo usado para relatar feitos grandiosos. Seus episódios e personagens – a esposa fiel Penélope, o filho virtuoso Telêmaco, a possessiva ninfa Calipso, as sedutoras e perigosas sereias – são parte integrante e indelével de nosso repertório cultural. O enredo pode ser resumido em poucas palavras. Em seu tratado conhecido como Poética, Aristóteles escreve: “Um homem encontra-se no estrangeiro há muitos anos; está sozinho e o deus Posêidon o mantém sob vigilância hostil. Em casa, os pretendentes à mão de sua mulher estão esgotando seus recursos e conspirando para matar seu filho. Então, após enfrentar tempestades e sofrer um naufrágio, ele volta para casa, dá-se a conhecer e ataca os pretendentes: ele sobrevive e os pretendentes são exterminados”.


Mais Um Livro

Caminhando no Gelo – Werner Herzog – Outro livro que acho muito dificil não mencionar quando penso em travessias, e em jornadas na vida, é este. É um livro incrível, intimista, corajoso e poético. O diretor de cinema Werner Herzog quando soube que uma querida amiga estava muito doente resolveu caminhar mais de mil quilômetros para encontrá-la. Foi levando praticamente nada, numa esperança louca de que sua caminhada pudesse interferir no desfecho da doença da amiga. E foi registrando o caminho, os perrengues, os pensamentos, e as paisagens e cidades que encontrou pelo caminho, enquanto refletia. É um livro que está longe de ser um clichê de relatos de peregrinação. Eu amei e esse livro ficou comigo por muito tempo.


Ele já era um cineasta conhecido quando em fins de novembro de 1974, em Munique, recebeu telefonema de um amigo de Paris dizendo que Lotte Eisner “estava muito doente, à beira da morte.” A reação de Werner Herzog foi passional: “Não pode ser (…) Não agora. O cinema alemão não pode ficar sem ela, não devemos deixá-la morrer. Peguei um casaco, uma bússola e uma sacola com o indispensável. Minhas botas estavam tão sólidas e novas, que me inspiraram confiança; Pus-me a caminho de Paris pela rota mais curta, na certeza de que ela viveria se eu fosse encontrá-la a pé, Além disso, tinha vontade de ficar só” (p. 7).

E assim foi feito: os mil quilômetros que separam Munique de Paris foram percorridos entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 1974. Werner Herzog foi escrevendo no caminho o que lhe passou pela cabeça em um caderninho de notas que, a princípio, não deveria ser publicado. Quase quatro anos depois, ao reler seus registros, confessou: “fui tomado de uma estranha emoção, e o desejo de mostrá-lo venceu minha timidez de desnudar-me assim aos olhos dos outros”


Ainda outro livro

(Mas deste não vou falar muito porque é um dos 3 livros que eu mais amo nesta vida. E também mostra uma imensa travessia. Falarei em outro post, em outra carta. Deixo só pra dar um gostinho. E saibam desde já que esse nome em português ficou horrível. )


Filme 

Uma História Real – David Lynch – 1999. Eu vi esse filme por acaso um dia destes, e fiquei bem impressionada. O filme tinha tudo pra que eu não gostasse dele, exceto o fato de ser um filme do David Lynch. Se passa no interior dos EUA, cheio de homens velhos, brancos, heteros, de pescoço vermelho. A história parecia ser típica deste tipo de pessoa. Mas era David Lynch e resolvi ver. Na verdade, não só por isso, me intrigou um pouco que fosse a história real de um senhor que resolveu percorrer centenas e centenas de quilômetros no interior dos EUA dirigindo um cortador de grama. Resolvi pagar pra ver e não me arrependi. É um filme belíssimo, comovente sem ser piegas, com uma história bem contada e muito peculiar. É a travessia do Sr. Alvin rumo a encontrar parte dele mesmo, e encontrar o que lhe improta. Vale demais ser visto. Mesmo quem tem dificuldade com a estranheza do David Lynch pode ver sem medo, pois é bastante linear e nada bizarro.


Um retrato lírico da real viagem de um homem através do coração da América. Filmado ao longo da rota de 260 milhas que Alvin Straigt percorreu em 1994, indo de Laurens, Iowa para Mr. Zion, Wisconsin, História Real conta as crônicas da odisséia de Alvin e das pessoas com as quais encontrou ao longo da travessia. É baseado na história real da jornada de Alvin Straight em 1994 através de Iowa e Wisconsin em um cortador de grama. Alvin é um idoso veterano da Segunda Guerra Mundial que mora com sua gentil filha com deficiência intelectual. Quando ele ouve que seu irmão distante sofreu um derrame, Alvin decide visitá-lo e, esperançosamente, fazer as pazes antes que ele morra. Como as pernas e os olhos de Alvin estão muito prejudicados para que ele obtenha uma carteira de motorista, ele engata um reboque em seu cortador de grama John Deere 110 de trinta anos de idade, que tem uma velocidade máxima de cerca de 5 milhas por hora (8,0 km/h), e parte em uma jornada de 240 milhas (390 km) de Laurens, Iowa, até Mount Zion, Wisconsin. O filme foi lançado pela Buena Vista Pictures (sob a marca da Walt Disney Pictures) nos Estados Unidos e foi um sucesso crítico, apesar de ter um desempenho abaixo do esperado nas bilheterias. Os críticos elogiaram a intensidade das performances dos personagens, especialmente o diálogo realista que o crítico de cinema Roger Ebert comparou às obras de Ernest Hemingway. Ele recebeu uma indicação à Palme d’Or no Festival de Cinema de Cannes de 1999 e Richard Farnsworth recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.


Série

Travelers – Brad Wright – 2016. Eu não sou uma boa leitora de ficção científica, quase não li nada deste gênero. Mas sou uma excelente espectadora. Minhas séries preferidas são todas de ficção científica. Alguns filmes preferidos também. Sempre fico desencavando séries assim pra ver. Essa série é excelente, mas não teve um final satisfatório. Não porque o fim tenha sido ruim, mas porque a netflix cancelou na terceira temporada. Como fim de temporada, foi ótimo o final, amarrou pontas explicou coisas. Mas deixou um gosto de quero mais, deixou muitos pontos para serem continuados. E claro que isso é frustrante. Mas foi muito mais para quem estava assistindo ao vivo. Mesmo assim, a história é excelente, deliciosa de assistir, eu me envolvi imensamente com ela. Recomendo muito, com a ressalva de que poderia ter continuado por muito tempo ainda.


Travelers foi uma série de televisão de ficção científica canadense-americana criada por Brad Wright, estrelado por Eric McCormack, MacKenzie Porter, Jared Abrahamson, Nesta Cooper, Reilly Dolman e Patrick Gilmore. A série é uma coprodução internacional entre o serviço de streaming Netflix e o canal especializado canadense Showcase nas duas primeiras temporadas, após o que a Netflix assumiu como única empresa de produção e distribuidor mundial exclusivo. A série estreou no Canadá em 17 de outubro de 2016 e em todo o mundo em 23 de dezembro de 2016. Uma segunda temporada seguiu em 2017, e uma terceira temporada foi lançada em 14 de dezembro de 2018.

Em um futuro pós-apocalíptico, milhares de agentes especiais são encarregados de impedir o colapso da sociedade. Esses agentes, conhecidos como “viajantes”, têm suas consciências enviadas de volta no tempo e transferidas para o corpo dos indivíduos atuais que, de outro modo, seriam momentos da morte, para minimizar o impacto inesperado na linha do tempo. A transferência requer a localização exata do alvo, possibilitada pelos smartphones e GPS do século XXI. Preparados usando mídias sociais e registros públicos referentes a seus alvos, cada viajante deve manter a vida preexistente do hospedeiro como pelo resto de suas vidas, enquanto realizam missões em equipes de cinco pessoas. Essas missões são ditadas pelo Diretor, uma inteligência artificial no futuro que monitora a linha do tempo, visando salvar o mundo de uma série de eventos catastróficos. Um método pelo qual o diretor se comunica com os viajantes é através de crianças pré-púberes usadas como mensageiras; Ao contrário dos adultos, qualquer criança pode ser seguramente tomada por alguns minutos e depois liberada do controle sem o risco de matá-los. Todos os viajantes devem se comportar de acordo com certos protocolos para proteger o cronograma.


♫ Playlist

Sorriso Aberto Jovelina pérola negra
Peripécias da Vida – Jovelina Pérola Negra
O Trenzinho do Caipira – Heitor Villa-Lobos
Alegria Alegria – Caetano Veloso
Deixa a vida me levar – Zeca Pagodinho
Chan Chan – Buena Vista Social Club
Você Não Entende Nada – Caetano & Chico
A Vida do Viajante – Luiz Gonzaga
Máscara – Pitty
Nada Será Como Antes – Milton Nascimento
Travessia do Eixão – Legião Urbana
Travessia do Araguaia – Tião Carreiro & Pardinho
As Curvas da Estrada de Santos – Roberto Carlos
Estrada – Cidade Negra
Na Estrada – Marisa Monte
Catedral – Zélia Duncan
Estrada da Vida – Milionário & José Rico
Vamos Fugir – Skank
Preciso me encontrar – Cartola
Encontros e Despedidas – Maria Rita
Hotel California – Eagles
Taxi Lunar – Zé Ramalho
Paris, Texas – Lana Del Rey

trajeto
20/7/24 17:12

entre tons de escuridão
nem se vê o caminho passar
silhuetas, vinhetas,
eu nem sei onde vou parar

destino pode até ser escolhido
mas sabe-se lá o que vai cortar seu caminho?
seja quente ou frio
o que importa é se movimentar

com outros olhos eu me espantaria
e no entanto já me parece comum
o tanto que viver é viciante
e o quanto ainda há pra ser

pode me levar, mar
me leva pra onde eu tenho que chegar
(e estar)

laís mr

21 de julho é o 202.º dia do ano no calendário gregoriano (203.º em anos bissextos). Faltam 163 dias para acabar o ano.


Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. E esse inverno infernal?
]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/07/21/na-boca-da-noite-um-gosto-de-sol/feed/ 2
https://almanaque.nalu.in/2024/06/30/tem-tijolo-de-construcao/ https://almanaque.nalu.in/2024/06/30/tem-tijolo-de-construcao/#comments Sun, 30 Jun 2024 03:23:31 +0000 https://almanalua.blog/?p=874 tem tijolo de construção

Belo Horizonte, 30 de junho de 2024

☀16° – 28°


Hoje faz quatro anos que fumei o último cigarro. É aniversário do meu sobrinho Fred. É aniversário da Marcinha também. E fazem anos hoje Dira Paes, Isabelita dos Patins, Marina Ruy Barbosa, Vincent D’Onofrio, Tony Belloto e Michael Phelps. Em 1911 nasceu o poeta Czesław Miłosz. Em 30 de junho de 1988 morreu Chacrinha. Em 2002 desencarnou Chico Xavier e em 2009 o mundo ficou mais feio com a partida de Pina Bausch. Neste dia, em 1905, Albert Einstein, publica sua teoria da relatividade, a relação entre espaço/tempo na equação E = mc2. Em 1908 aconteceu o estupendo Evento de Tunguska, que até hoje não foi de todo desvendado. Em 1936 o livro E o Vento Levou de Margaret Mitchell foi publicado. Em 1962 Ruanda e Burundi se tornam países independentes. Em 2002 o Brasil se torna pentacampeão de futebol. Em 2008 estreia o filme Mamma Mia. E para alegria de todos e felicidade geral da nação em 2023 o Tribunal Superior Eleitoral formou maioria pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro até 2030.


Tudo foi tirado de vocês: túnica branca,
asas, até mesmo a existência.
Contudo, ainda acredito em vocês,
mensageiros.

Aqui, onde o mundo está virado do avesso,
uma trama maciça bordada com astros e bestas,
vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis.

Curta é sua estadia neste lugar:
às vezes na hora matinal, se o céu está claro,
na melodia repetida por um pássaro,
ou no cheiro das maçãs no fim do dia
quando as luzes fazem dos pomares lugares mágicos.

Dizem que alguém os concebeu,
mas para mim isso não parece convincente,
pois os humanos também foram concebidos.

A voz – sem dúvida é uma prova válida,
pois só pode pertencer a criaturas radiantes,
sem peso e aladas (afinal, por que não?),
cingidas pelo raio.

Eu ouvi aquela voz várias vezes quando dormia
e, o que é estranho, percebi mais ou menos
uma ordem ou um apelo em uma língua sobrenatural:

o dia se aproxima
mais um
faça o que puder.

♣

Czesław Miłosz



Um dia antes de 30 de junho de 1986 escreveu Tarkovski em seu diário:

O último dia da quimioterapia.

No dia 30 de junho ele registrou:

No dia 6 vou à Alemanha, para o hospital. Fiz com Leon (nos últimos quatro dias) a quimioterapia e ele foi descansar na Ioguslávia. Sinto-me terrível:dói tudo, não tenho forças. Leon disse que em um mês farei mais uma quimioterapia. Fiz a revisão do texto russo do livro. Sobrou o último capítulo.

E no dia seguinte o cineasta fez a seguinte entrada:

Comprar e levar para a Alemanha;

  1. roupas (comprar calçados esportivos);
  2. papel para cartas;
  3. Hoffmanniana;
  4. evelopes grandes e pequenos;
  5. medicamentos;
  6. o último capítulo. Para terminar de traduzir;
  7. dinheiro;
  8. livros de Christiane Bertoncini;
  9. o artigo de Gorbanevskaya;
  10. telefonar para Boguin;
  11. e para a Universidade dos EUA.

Andrei Tarkovski – Diários 1970-1986 – Realizações Editora

Esqueçam o que se foi;
não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova!
Ela já está surgindo! Vocês não a reconhecem?
Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.
Isaías 43:18-19

Amor que não se pede, amor que não se mede, amor que não se repete

Estamos diante de mais um recomeço. Sim, encaramos já uma metade inteirinha de um ano 😊. Está na hora de tomar uma longa respiração, sacudir qualquer rastro de poeira, levantar do sofá e olhar a janela, porque amanhã é segunda, é um mês novo e temos ainda a outra metade completa para viver. Chegou o Dois de Paus com seus auspícios para o que ainda temos que fazer.
Esse arcano encantado sinaliza que sempre é tempo de recomeçar. Sempre é tempo de fazer algo de novo, de novo. O meio do ano tem essa magia, a de recomeçar, e tem esse absurdo, recomeçar.
Na verdade, nada recomeça, é só que necessitamos dessas tabuinhas de salvação para aguentar, para dar conta, para sobreviver. Cada vez mais precisamos de doses de esperanças quase tolas pra seguir. E o Dois de Paus traz um pouco dessa fábula de sobrevivência. Ele prega a possibilidade de recomeçarmos, é tudo. Vamos ouvir a carta de hoje.

Precisamos de encanto na vida. Precisamos de um mundo reencantado, e de novo. E essa é uma das funções do tarô. Se o mundo se desencantou com a morte da magia, e freneticamente procuramos o espetáculo em outros lugares e outros likes, o tarô pode ser um pequeno norte (norte tem tamanho?).
Inclusive quem lê esse almanaque já sabe que essa mensagem de recomeçar não é inédita. É a própria natureza da mensagem, ela precisa reaparecer ocasionalmente. É preciso corrigir o rumo mais de uma vez na vida, mais de uma vez por ano.

É um bom momento para reencantar a vida, para colocar de novo as coisas em perspectiva. Esse meio do ano traz uma delícia própria, ainda podemos fazer muito mais coisas além de tentar existir , embora sobreviver às vezes seja mais que bom, mais que ótimo, seja tudo e só o que podemos.

Eu tenho tido muita dificuldade com esse 2024. Ao mesmo tempo em que é um ano abençoado, stanno tutti bene, é um ano em que tenho passado por dores bem cansativas. Por isso preciso desse respiro do meio do ano. E o Dois de Paus é um excelente sinal de que é possível fazer. Esse é um arcano do engenho. Fazer, agir, tocar projetos, se movimentar para espantar dor e cansaço.

A mensagem do Dois De Paus neste começo de semestre é esta: é possível e desejável recomeçar, fazer planos de novo, reajustar os velhos rascunhos. É um bom momento para olharmos o que já temos e o que precisamos ainda fazer e voilà: fazer.
Maria Popova fala de maneira bonita sobre os começos:

Há momentos na vida em que somos lembrados de que estamos inacabados, que a história que temos contado a nós mesmos sobre quem somos e para onde leva nossa vida ainda não foi escrita. Esses momentos surgem mais facilmente no início de algo novo.
Começar qualquer coisa — uma nova prática, um novo projeto, um novo amor — é lançar sobre si mesmo um feitiço contra a estagnação. Começos são notações para a sinfonia do possível em nós. Eles nos pedem para quebrar o padrão de nossas vidas e reconfigurá-lo de novo — algo que só pode ser feito com grande coragem e grande ternura, pois nenhum território da vida expõe tanto nosso poder quanto nossa vulnerabilidade mais brilhantemente do que um começo.

Boa semana, não ajam em vão, encontrem amor para recomeçar.

O Dois de Paus é uma carta do tarô que carrega consigo uma energia de decisão e direção. Representando a dualidade e a escolha, esta carta mostra um momento em que é necessário tomar uma decisão importante e seguir um caminho específico. Na imagem mais clássica do Dois de Paus, vemos um homem segurando dois bastões, olhando para o horizonte. Ele está em pé, em um ambiente aberto, simbolizando a liberdade e as possibilidades que se apresentam diante dele. Esta carta transmite a sensação de que é preciso escolher um caminho e seguir adiante, deixando para trás a indecisão e a hesitação. Quando o Dois de Paus aparece em uma leitura, indica que chegou o momento de tomar uma decisão importante em relação a algum aspecto da vida do consulente. Pode ser uma decisão relacionada à carreira, aos relacionamentos, aos projetos pessoais ou até mesmo a mudanças significativas. Esta carta mostra que é necessário avaliar as opções disponíveis, considerar as consequências de cada escolha e, finalmente, decidir qual caminho seguir. Por outro lado, o Dois de Paus também traz consigo a mensagem de que é preciso agir com coragem e confiança ao tomar essa decisão. O homem na imagem da carta está seguro e firme, indicando que é necessário ter confiança nas próprias habilidades e capacidades para seguir em frente. Esta carta encoraja o consulente a assumir o controle da situação e acreditar na sua capacidade de influenciar os acontecimentos. Além disso, o Dois de Paus também pode indicar a necessidade de recomeçar e explorar novos horizontes. Esta carta sugere que o consulente esteja aberto a novas experiências e esteja disposto a expandir seus horizontes. Pode ser o momento de buscar novos desafios, de viajar para lugares desconhecidos ou de se aventurar em novos projetos. O Dois de Paus encoraja a sair da zona de conforto e a buscar aperfeiçoamento e melhoria. A energia do Dois de Paus também traz consigo a necessidade de equilíbrio e ponderação. Ao tomar uma decisão importante, é essencial considerar todos os aspectos envolvidos e agir de forma consciente. Esta carta alerta para a importância de não agir impulsivamente, mas sim de avaliar cuidadosamente as opções antes de seguir adiante.

Camus, que reinicia nossa vida

Há pouco, outras coisas, os homens e os túmulos que compram. Mas deixem-me recortar este minuto no tecido do tempo. Outros deixam uma flor entre as páginas de um livro, encerrando nele um passeio em que o amor os tocou de leve. Eu também passeio, mas é um deus que me acaricia. A vida é curta, e é pecado perder tempo. Sou ativo, segundo dizem. Mas ser ativo é, ainda, perder tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é uma parada e meu coração parte ao encontro de si mesmo. Se uma angústia ainda me oprime, é por sentir esse impalpável instante escorrer por entre meus dedos, como as partículas do mercúrio. Deixem, pois, aqueles que querem dar as costas ao mundo. Não me queixo porque me vejo nascer. Neste momento, todo o meu reino é desse mundo. Este sol e estas sombras, este calor, e este frio que vem do fundo do ar: devo perguntar-me se algo morre e se os homens sofrem, já que tudo está escrito nesta janela na qual o céu derrama a plenitude ao encontro de minha piedade. Posso dizer, e vou dizê-lo daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro, e, então, tudo se inscreve nisso, a humanidade e a simplicidade. E, então, quando sou mais verdadeiro do que quando sou o mundo? Sou presenteado antes de ter desejado. A eternidade está ali, e eu esperava por ela. Agora, não desejo mais ser feliz, e sim apenas estar consciente.

Um homem contempla, e o outro cava o seu túmulo: como separá-los? Os homens e seu absurdo? Mas eis o sorriso do céu. A luz se infla e será logo verão? Mas eis os olhos e a voz daqueles a quem é preciso amar. Sou ligado ao mundo por todos os meus gestos; aos homens, por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este lugar e este avesso do mundo, não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irônico. Dizem: “Isso mostra que você não é bom.” Não vejo a ligação. É claro, se ouso dizer a alguém que é imoralista, traduzo que ele tem necessidade de atribuir-se uma moral; o outro, que despreza a inteligência, compreendo que não consegue suportar suas dúvidas. Mas isto porque não gosto que se trapaceie. A grande coragem é, ainda, a de manter os olhos abertos, tanto sobre a luz quanto sobre a morte. De resto, como explicar o elo que leva deste amor devorador pela vida a esse desespero secreto. Se escuto a ironia, escondida no fundo das coisas, ela se descobre lentamente. E, piscando o olho pequeno e claro: “Viva como se…,” diz ela. Apesar de muitas pesquisas, está aí toda a minha ciência.

Afinal, não estou certo de ter razão. Mas o importante não é se penso naquela mulher cuja história me contaram. Ela ia morrer e sua filha vestiu-a para o túmulo enquanto ainda estava viva. Na verdade, parece que a coisa é mais fácil quando os membros ainda não estão rígidos. Mas, mesmo assim, é curioso como vivemos no meio de pessoas apressadas.

Albert Camus – O Avesso e o Direito – Editora Record


A mão direita da natureza

Quando se quebra e se está quebrado, é ela que nos reinicia. Ela, junto do amor.

Livro

E o Vento Levou – Margaret Mitchell. Eu já indiquei esse livro, mas na época foi mais para falar de um personagem, o Reth Butler. Agora quero indicar o livro por si mesmo (hahahaha). Porque é um livro da minha infância (pois é), porque eu amo. E porque ele faz aniversário hoje. E porque é uma imensa ode aos recomeços, pensem na última frase deste livro. E claro, porque é um clássico da cultura pop, é incontornável. E porque é um livro que ecoa um mundo que está morrendo. E não estou falando dos aspectos complicados do livro, estou falando que ele simboliza um mundo que está no fim, as pessoas que têm este livro como referência estão acabando. C’est la vie. Mas aproveitem enquanto ainda.


A maior história de amor do século XX, que deu origem ao premiado filme com Vivien Leigh e Clark Gable. Ano de 1861. O sul dos Estados Unidos está prestes a ingressar na sangrenta Guerra Civil norte-americana. Na fazenda Tara, na Geórgia, a bela jovem impetuosa e mimada Scarlett O’Hara transforma-se em mulher prática e disposta a tudo para conquistar o que deseja. Frustrada por não conseguir se casar com Ashley Wilkes, Scarlett acaba se envolvendo com o aventureiro Rhett Butler, com quem viverá uma das histórias de amor mais célebres e conturbadas da literatura. A guerra é intensa e o cerco dos ianques, incisivo, levando a fazenda a uma situação desastrosa de fome e desespero. Margaret Mitchell descreve de maneira impressionante a Guerra Civil norte-americana e retrata as grandes mudanças que pavimentaram a história dos Estados Unidos. E o vento levou é uma das obras mais notáveis da literatura norte-americana. Publicado originalmente em 1936, o romance ganhou o Prêmio Pulitzer no ano seguinte. Os dois volumes retratam uma das histórias de amor mais famosas da literatura mundial, um clássico imortalizado no cinema por Vivien Leigh e Clark Gable, ganhador de oito Oscars.


Documentário

Pina – Wim Wenders – 2012. Hoje faz aniversário da morte de Pina Bausch, que nos deixou cedo demais. Indico esse documentário pelo aniversário e porque para recomeçar e ajustar o rumo nada melhor do que uma dose cavalar de beleza. E é isso que esse documentário proporciona. É lindo, sobre uma figura que proporcionou genialidade e muita beleza ao mundo. Assistir a esse documentario só pode encher a alma de força para qualquer recomeço. Não só pela beleza em si, mas pela força extraordinária da bailarina e coreógrafa que foi Pina Bausch. E porque é Wim Wenders.


O documentário “Pina”, dirigido por Wim Wenders, é uma obra cinematográfica que homenageia a coreógrafa alemã Pina Bausch. Lançado em 2011, o filme apresenta uma visão única e emocionante do trabalho da artista, conhecida por revolucionar a dança contemporânea. Wenders utiliza sua habilidade como diretor para capturar a essência e o impacto das coreografias de Pina Bausch. O documentário oferece ao espectador uma imersão profunda no universo da dança, revelando a genialidade e a sensibilidade de Pina. Ao longo do filme, somos apresentados a algumas das obras mais marcantes de Pina Bausch, como “Café Müller” e “Kontakthof”, que são apresentadas de forma deslumbrante e envolvente. A maneira como Wenders utiliza a linguagem cinematográfica para traduzir a energia e a emoção das coreografias é verdadeiramente impressionante. “Pina” é mais do que um simples documentário sobre dança. É uma celebração da arte, da paixão e da expressão humana. Wim Wenders consegue transmitir a essência do trabalho de Pina Bausch de uma forma que emociona e inspira, mesmo para aqueles que não são familiarizados com o mundo da dança contemporânea.


Filme

Hoje eu quero voltar sozinho – Daniel Ribeiro – 2014. Porque estamos no último dia do mês do orgulho lgbtqiapn+. É um filme que fala sobre começar. Começar a tomar as rédeas da vida, começar a viver, recomeçar sem proteção e se jogando em direção ao viver. Além de ser um filme muito bom, diferente, nacional, e bonito.


Leonardo é um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca de seu lugar. Desejando ser mais independente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo.


Série

Série Heart Break High – 2022 – Hannah Carroll Chapman. Essa série eu não vi, é indicação da Lina, minha filha. Quando soube que o tema era recomeço, ela imediatamente lembrou dessa série, que viu e adorou. Segundo ela a primeira temporada, especificamente tem como um dos temas principais o recomeço da amizade entre duas das personagens principais. E também, pelo que pesquisei, é sobre o recomeço da personagem principal, depois de ter cometido um erro muito grande, que afetou muita gente. 


Heartbreak High é uma série de televisão australiana de comédia dramática criada para a Netflix, por Hannah Carroll Chapman. É um reboot da série de 1994 exibida pela primeira vez na Network Ten. O programa estreou em 14 de setembro de 2022. Um mês depois de seu lançamento, o programa foi renovado para uma segunda temporada. A primeira temporada foi recebida com críticas positivas e recebeu 15 indicações ao AACTA Awards, incluindo Melhor Série Dramática, ganhando seis prêmios. Em 2023 Heartbreak High recebeu uma indicação ao prêmio de Melhor Série Live-Action no 51º International Emmy Awards.

Na série, Amerie (Ayesha Madon) acaba cortando laços de forma dramática com sua melhor amiga Harper (Asher Yasbincek). Tudo começa quando ela decide revelar os segredos sexuais e românticos de todos os colegas de classe criando um mapa sobre quem ficou com quem. A princípio, as pessoas levam a situação na brincadeira, mas rapidamente as coisas fogem do controle quando segredos pessoais são expostos. Estressada com a situação, Harper se ressente da amiga pela atitude e decide encerrar sua amizade. Logo, todos da escola também rejeitam Amerie e, agora, ela precisará encontrar uma forma de reverter o que causou para retomar sua amizade com a amiga.


♫ Playlist

Straight From The Heart – Bryan Adams
Onde Você Mora – Cidade Negra
Começo, Meio e Fim – Roupa Nova
Giz – Legião Urbana
My Silver Lining – First Aid Kit
Começaria tudo outra vez – Gonzaguinha
Non, je ne regrette rien – Edith Piaf
Frejat – Amor pra recomeçar
O Sol – Jota Quest
Hasta La Raíz – Natalia Lafourcade
Mais uma vez – Legião Urbana
Me Adora – Pitty
Tempos Modernos – Lulu Santos
Disritmia – Martinho da Vila
Não enche – Caetano Veloso
Começar de novo – Ivan Lins
Rolling in the Deep – Adele
Bilhete – Fafá de Belém
Olhos nos Olhos – Chico Buarque
Gostava Tanto de Você – Tim Maia


Ela vestiu seu chapéu-de-sol,
E pôs o seu mais verde vestido;
Virou-se para o vento austral
E prestou-lhe o cortejo devido.
Virou-se então para a luz do sol
E os cabelos louros agitou,
E sussurrou para o seu vizinho:
“O inverno acabou”

A. A. Milner

P. S. Não tem como lidar com esse tema recomeços e não lembrar de todo o povo do Rio Grande do Sul que está sendo obrigado a recomeçar, e de maneira extremamente violenta e cruel. Sem querer, sem pedir por por isso e apenas como vítimas dos acontecimentos. Não há nada a ser falado sobre isso que não seja fútil, o único possível, depois de ajudar de fato, é se indignar e sinceramente desejar que se recuperem como for possível. 


Post com a colaboração de @laismeralda, que é a melhor cartomante do pedaço, marque sua consulta com ela.


Se você leu até aqui, obrigada! Esse é o meu almanaque particular. Um pedaço do meu diário, da minha arca da velha, um registro de pequenas efemérides, de coisas que quero guardar, do tempo, do vento, do céu e do cheiro da chuva. Os Vestígios do Dia, meus dias. Aqui só tem referências, pois é disso que sou feita.

© Nalua – Caderninho pessoal, bauzinho de trapos coloridos, nos morros de Minas Gerais. E esse inverno infernal?

30 de junho é o 181.º dia do ano no calendário gregoriano (182.º em anos bissextos). Faltam 184 dias para acabar o ano.

]]>
https://almanaque.nalu.in/2024/06/30/tem-tijolo-de-construcao/feed/ 3